Guias de saúde claros e revisados — informação, não diagnóstico

Dossiê Homemuma publicação PostMills
Apneia do sono

Apneia central × apneia obstrutiva: a diferença

As duas têm o mesmo nome e o mesmo sintoma — parar de respirar dormindo —, mas o defeito é oposto: uma é a via aérea fechando, a outra é o cérebro esquecendo de mandar respirar. O exame que separa uma da outra e por que o tratamento não é o mesmo.

Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Apneia do sono

Foto: Nitin Khajotia / Pexels

“Apneia” é uma palavra, mas descreve dois defeitos diferentes. Na obstrutiva, o corpo tenta respirar e não consegue — a via aérea fecha. Na central, o corpo simplesmente não tenta — o cérebro para de mandar o comando. O sintoma que o parceiro de cama percebe é o mesmo (a respiração para), mas o que está quebrado por trás é o oposto, e é por isso que o exame e o tratamento não se resolvem da mesma forma.

O que separa os dois tipos — e o que só a polissonografia confirma

O que faz: o mecanismo de cada tipo é oposto — na obstrutiva, a via aérea colapsa enquanto o corpo tenta respirar contra ela (Jordan, McSharry e Malhotra, 2014); na central, o cérebro simplesmente deixa de mandar o sinal para respirar, sem esforço nenhum durante a pausa (Eckert et al., 2007).

O que não faz: o ronco não diferencia um tipo do outro com segurança — é indício, porque evento central tende a ser silencioso, mas os dois tipos podem coexistir na mesma noite, e ronco isolado não é diagnóstico.

O que define o caso: a polissonografia, que registra o esforço respiratório pelas cintas no tórax e no abdômen durante cada pausa — presente na obstrutiva, ausente na central — e fecha o tipo predominante pelo critério do ICSD-3 quando os eventos centrais somam 50% ou mais das pausas e o índice de apneia central chega a 5 ou mais por hora.

Quem não deve seguir sozinho: quem já usa CPAP para apneia obstrutiva e continua com eventos residuais não deve presumir que o aparelho está mal ajustado — pode ser apneia central emergente ao tratamento, que pede reavaliação do especialista, não só o reforço da pressão.

Obstrutiva: a via aérea que fecha

Na apneia obstrutiva, a caixa torácica continua se movendo — o diafragma e os músculos intercostais seguem tentando puxar ar. O problema é que a garganta colapsa durante a inspiração: a pressão negativa gerada para puxar o ar não é compensada pelos músculos dilatadores da faringe, sobretudo quando já existe estreitamento por excesso de tecido mole ou anatomia craniofacial desfavorável (Jordan, McSharry e Malhotra, 2014, The Lancet). O ar tenta passar por um cano que se fechou, e é esse esforço contra a obstrução — muitas vezes audível como ronco — que caracteriza o evento.

É, disparadamente, o tipo mais comum. Benjafield et al. (2019), na estimativa de carga global mais citada da área, calculam até 936 milhões de adultos de 30 a 69 anos no mundo com algum grau de apneia obstrutiva (índice de apneia-hipopneia ≥ 5) e 425 milhões com grau moderado a grave (≥ 15).

Central: o sinal que não chega

Na apneia central, a via aérea está livre. O que falta é o comando: o centro respiratório do cérebro, por instabilidade momentânea do controle da respiração, deixa de enviar o sinal para os músculos respiratórios — e eles simplesmente não se movem durante o evento (Eckert et al., 2007, Chest). Não há esforço torácico nem obstrução para vencer; a pausa acontece porque, por alguns segundos, ninguém “pediu” para respirar.

É bem mais rara. No Sleep Heart Health Study, coorte comunitária com 5.804 adultos de 40 anos ou mais, Donovan e Kapur (2016) encontraram apneia central em 0,9% da amostra — contra taxas de obstrutiva que passam de 50% em subgrupos com insuficiência cardíaca no mesmo estudo. Fora do consultório de sono, é evento incomum sem uma condição de base por trás.

O que a polissonografia mede para diferenciar

A polissonografia registra dois sinais separados durante cada pausa: o fluxo de ar (por sensor no nariz e na boca) e o esforço respiratório (por cintas no tórax e no abdômen). É a combinação dos dois que classifica o evento:

  • Obstrutivo: o fluxo de ar cai ou some, mas as cintas continuam registrando movimento — o corpo está se esforçando contra uma via fechada, às vezes com o padrão característico de esforço paradoxal (tórax e abdômen se movendo fora de sincronia).
  • Central: o fluxo de ar cai ou some e as cintas ficam praticamente paradas — não há esforço porque não houve comando para produzi-lo.

Pela definição usada na pontuação do exame, um evento central é a cessação do fluxo de ar por 10 segundos ou mais sem esforço respiratório identificável no período. É essa ausência de esforço — não a duração, não a queda de oxigênio — que separa um tipo do outro no traçado.

O laudo também soma os eventos ao longo da noite. Pelo ICSD-3, o critério de classificação central é: eventos centrais correspondendo a 50% ou mais das pausas respiratórias registradas, e um índice de apneia central de 5 ou mais por hora de sono. Abaixo disso, mesmo havendo alguns eventos centrais isolados, o quadro é classificado como obstrutivo — e é comum aparecer um pouco de cada tipo no mesmo exame, sem que isso mude o diagnóstico predominante.

Por que o tratamento de primeira linha muda

O CPAP (pressão positiva contínua) foi desenhado para resolver exatamente o problema mecânico da apneia obstrutiva: ele funciona como um “escora” pneumático, mantendo a via aérea aberta com um fluxo constante de ar, e por isso é o tratamento padrão e altamente eficaz para o tipo obstrutivo.

Na apneia central, a via aérea já está aberta — então sustentar o que já está sustentado não ataca a causa, que é a instabilidade do comando respiratório. Parte dos pacientes com central melhora com CPAP mesmo assim; outra parte não responde, e o caso pede investigar e tratar a condição de base por trás do evento, ou outras formas de suporte ventilatório. Esse aprofundamento — causas específicas da apneia central e como o tratamento dela é conduzido — é o assunto do artigo sobre apneia central do sono, não deste.

Resumindo

Os dois tipos param a respiração, mas por mecanismos opostos: a obstrutiva é a via aérea fechando enquanto o corpo tenta respirar (Jordan, McSharry e Malhotra, 2014), a central é o cérebro deixando de mandar o comando (Eckert et al., 2007). A obstrutiva é disparadamente mais comum — até 936 milhões de adultos no mundo, segundo Benjafield et al. (2019) —, contra 0,9% de prevalência da central numa coorte de 5.804 adultos (Donovan e Kapur, 2016). A polissonografia separa as duas pelo esforço respiratório durante a pausa, presente na obstrutiva e ausente na central, e fecha diagnóstico de central quando esses eventos somam metade ou mais das pausas da noite. Por isso o CPAP, que resolve a obstrução mecânica, não é resposta automática para um problema que não é mecânico — e é esse desencontro que faz a central pedir investigação própria.

Perguntas frequentes

Apneia central é mais grave que a obstrutiva?

Não existe hierarquia fixa — depende da causa e da frequência dos eventos, não do tipo. A obstrutiva é disparadamente mais comum (Benjafield et al., 2019, estimam até 936 milhões de adultos de 30 a 69 anos no mundo com algum grau, contra 0,9% da população acima de 40 anos com a central, segundo Donovan e Kapur, 2016). A central costuma aparecer associada a outra condição de base — insuficiência cardíaca, uso de opioide, AVC —, e é essa condição que geralmente pesa mais no prognóstico do que o tipo de apneia em si.

Dá para saber em casa se a apneia é central ou obstrutiva?

Não com segurança. Ronco alto costuma apontar para obstrutiva, porque o ronco é o próprio ar forçando passagem por uma via estreitada — e evento central tende a ser silencioso, sem ronco antes da pausa. Mas é indício, não diagnóstico: os dois tipos podem coexistir na mesma noite, e só a polissonografia mede o esforço respiratório durante o evento, que é o que de fato diferencia um do outro.

O CPAP funciona igual para os dois tipos?

Não. O CPAP foi desenhado para a obstrutiva — ele sustenta a via aérea aberta com pressão de ar, resolvendo diretamente o colapso físico. Na apneia central o problema não é mecânico, é o cérebro não mandar o sinal para respirar, então sustentar a via aérea aberta não corrige a causa. Parte dos pacientes com central responde ao CPAP, parte não, e o tratamento costuma seguir outro caminho — o aprofundamento fica no artigo sobre apneia central do sono.

Uma pessoa pode ter os dois tipos de apneia ao mesmo tempo?

Pode — é chamada apneia complexa ou do tratamento (treatment-emergent), quando eventos centrais aparecem ou persistem depois que a via aérea já está sendo sustentada por CPAP. A polissonografia classifica o caso pelo tipo predominante: pelo ICSD-3, fecha diagnóstico de central quando os eventos centrais somam 50% ou mais das pausas registradas e o índice de apneia central chega a 5 ou mais por hora.

Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.