Apneia: o termo técnico explicado (IAH e os graus)
O laudo da polissonografia fala em apneia, hipopneia e IAH como se fossem óbvios — e não são. Veja a diferença técnica entre os dois eventos, como o Índice de Apneia-Hipopneia é contado por hora de sono e as faixas que separam leve, moderada e grave.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

O laudo chega com “IAH: 22 eventos/hora — apneia obstrutiva do sono moderada” e o termo mais concreto da frase, o número, é justamente o que menos vem explicado. “Apneia” no laudo não é sinônimo solto: é um evento com definição técnica própria, contado de um jeito específico, dentro de um índice que tem faixa de corte publicada. Este artigo decodifica esse jargão — o que aparece no papel, não o código administrativo do diagnóstico nem os sintomas que levam ao exame.
O que o IAH resolve — e o que só o critério de leitura decide
O que faz: o IAH soma apneias e hipopneias da noite e divide pelas horas de sono, classificando o resultado em normal, leve, moderada ou grave pelos critérios da AASM.
O que não faz: o número sozinho não informa a duração média dos eventos nem a dessaturação da noite — dois pacientes com IAH 32 podem ter quadros clínicos bem diferentes, um com eventos curtos e dessaturação leve, outro com eventos longos e quedas de oxigênio acentuadas.
O que define o caso: qual critério de hipopneia o laboratório usou para pontuar o exame — dessaturação de 3% ou microdespertar (o recomendado pela AASM desde 2012) contra dessaturação de 4% isolada — porque isso muda o número final sem que nada tenha mudado na noite do paciente.
Quem não deve seguir sozinho: quem vai comparar exames de laboratórios diferentes, ou usar o IAH para decidir tratamento, não deve presumir que o critério de leitura foi o mesmo — vale perguntar qual foi usado quando o laudo não informa.
Apneia e hipopneia não são o mesmo evento
Os dois nomes aparecem juntos no laudo, mas descrevem coisas diferentes, com critério próprio cada um.
Apneia é queda de pelo menos 90% no sinal de fluxo de ar, medido por sensor térmico oronasal ou equivalente, sustentada por no mínimo 10 segundos. É perto de uma parada — o ar quase não passa pelo período mínimo exigido para contar.
Hipopneia é mais sutil e tem uma regra a mais. É queda de pelo menos 30% no fluxo de ar, também por no mínimo 10 segundos, mas só conta como evento se vier acompanhada de dessaturação de oxigênio de 3% ou de um microdespertar (arousal) registrado no eletroencefalograma do exame. Sem um desses dois sinais associados, a queda de fluxo não entra na contagem — mesmo que tenha durado os 10 segundos.
Isso significa que hipopneia não é “apneia mais fraca” tratada com régua mais frouxa. É um evento com critério composto — precisa da queda de ar e de uma consequência mensurável no oxigênio ou no cérebro. Uma respiração mais rasa que não derruba o oxigênio nem quebra o sono não vira hipopneia no laudo, mesmo perceptível no traçado.
O que o IAH conta, e por hora de quê
O Índice de Apneia-Hipopneia soma o número de apneias com o número de hipopneias da noite inteira e divide pelo total de horas de sono — não pelo total de horas que o paciente passou deitado com o sensor ligado.
A diferença importa porque nem todo minuto de exame é sono. Alguém que passou oito horas na cama, mas dormiu efetivamente seis, tem os eventos daquelas seis horas divididos por seis — não por oito. Um exame que usa o tempo total de registro como denominador, prática comum em testes domiciliares sem eletroencefalograma para confirmar sono real, tende a subestimar o IAH: os mesmos eventos, divididos por um número maior de horas, produzem um índice mais baixo do que o real.
O laudo às vezes traz também um RDI (índice de distúrbio respiratório) ao lado do IAH. Não são o mesmo número — o RDI soma, além de apneias e hipopneias, um terceiro tipo de evento (despertar respiratório sem queda de fluxo suficiente para hipopneia, o RERA). A classificação de gravidade, porém, é feita sobre o IAH, não sobre o RDI.
As faixas de gravidade
A American Academy of Sleep Medicine (AASM) define quatro faixas para adulto, pelo número de eventos por hora de sono:
| Classificação | IAH (eventos por hora de sono) |
|---|---|
| Normal | menos de 5 |
| Leve | 5 a 14,9 |
| Moderada | 15 a 29,9 |
| Grave | 30 ou mais |
A faixa é definida só pelo número — não entra na conta a duração média dos eventos, nem a dessaturação mínima ou máxima da noite, que aparecem em outros campos do laudo (índice de dessaturação, saturação mínima). Dois pacientes com IAH 32 caem na mesma faixa “grave” mesmo que um tenha eventos curtos e dessaturação leve, e o outro, eventos longos com quedas de oxigênio acentuadas — a gravidade do índice e a gravidade clínica percebida pelo médico não são sempre a mesma leitura, e é por isso que o laudo isolado não substitui a avaliação do especialista que pediu o exame.
Por que o mesmo sono pode gerar IAH diferente em laboratórios diferentes
Existem dois critérios aceitos para contar hipopneia, e a escolha entre eles muda o número final sem que nada tenha mudado na noite do paciente.
O que a AASM recomenda desde 2012 é o que já foi descrito: queda de fluxo de 30% associada a dessaturação de 3% ou a um microdespertar. Um critério alternativo, mantido como opção em parte dos serviços, exige dessaturação de 4% e não conta o microdespertar sozinho como suficiente. Esse segundo critério é mais rígido em dois eixos ao mesmo tempo — dessaturação maior exigida, e a via do despertar fechada — o que faz com que ele capture menos hipopneias que o critério recomendado, aplicado ao mesmo traçado.
Na prática: um paciente cujo sono foi pontuado pelo critério de 4% pode aparecer com IAH mais baixo — e cair numa faixa de gravidade mais leve no papel — do que se o mesmo registro tivesse sido pontuado pelo critério de 3%/despertar. Não é erro de aparelho nem inconsistência do paciente: é diferença de protocolo de leitura, e o laudo deveria informar qual critério foi usado quando o número for usado para decidir tratamento.
Resumindo
Apneia é queda de 90% ou mais no fluxo de ar por pelo menos 10 segundos; hipopneia é queda de 30% ou mais pelo mesmo tempo mínimo, mas só conta se vier com dessaturação de oxigênio ou microdespertar junto. O IAH soma os dois tipos de evento e divide pelas horas de sono — não pelo tempo total de exame —, e a AASM classifica o resultado em quatro faixas: normal (abaixo de 5), leve (5 a 14,9), moderada (15 a 29,9) e grave (30 ou mais). O detalhe que muda o número sem mudar a noite do paciente é o critério de hipopneia usado na leitura — 3% de dessaturação ou despertar, contra 4% de dessaturação isolada —, e é por isso que o mesmo sono pode render laudos com IAH diferentes em serviços diferentes.
Perguntas frequentes
O que é IAH no exame de apneia?
IAH é o Índice de Apneia-Hipopneia: o número de apneias e hipopneias registradas na polissonografia, dividido pelas horas de sono efetivo (não pelo tempo total de exame). É esse número, e não a contagem bruta de eventos, que classifica a gravidade — 5 a 14,9 é leve, 15 a 29,9 é moderada, 30 ou mais é grave, segundo os critérios da American Academy of Sleep Medicine (AASM).
Qual a diferença entre apneia e hipopneia?
Apneia é queda de pelo menos 90% no fluxo de ar por, no mínimo, 10 segundos — praticamente uma parada. Hipopneia é uma redução menor, de pelo menos 30%, pelo mesmo período mínimo, mas só conta como evento se vier acompanhada de queda de oxigênio no sangue ou de um microdespertar registrado no exame. Os dois entram juntos na mesma soma do IAH, mas são definidos por critérios diferentes.
IAH de quanto é considerado apneia grave?
A partir de 30 eventos por hora de sono, pelos critérios da AASM. De 15 a 29,9 é moderada, de 5 a 14,9 é leve, e abaixo de 5 está dentro da faixa considerada normal para adulto. A classificação usa a faixa em que o número cai, não a distância entre um evento e outro.
Por que dois exames do mesmo paciente podem mostrar IAH diferente?
Porque existem dois critérios aceitos para contar hipopneia. O critério que a AASM recomenda desde 2012 conta a queda de fluxo de ar acompanhada de dessaturação de oxigênio de 3% ou de um microdespertar. O critério alternativo, mantido como opção por alguns serviços, só conta dessaturação de 4% e ignora o despertar. Um laboratório que usa o segundo critério tende a contar menos hipopneias — e pode classificar o mesmo sono numa faixa de gravidade mais baixa.
Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.