"Booster" de testosterona: o que os suplementos vendidos por aí realmente fazem
Ácido D-aspártico, tribulus terrestris e feno-grego têm evidência fraca ou nula para elevar testosterona em homem com nível normal. A exceção é zinco e vitamina D — só em quem já é deficiente. Veja o que os estudos realmente mediram.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Foto: Gundula Vogel / Pexels
“Testosterona suplemento” é busca que carrega uma promessa embutida: um comprimido de venda livre que eleva o hormônio como se fosse reposição. A prateleira de “testosterone booster” reúne ácido D-aspártico, tribulus terrestris, feno-grego (fenugreek), zinco e vitamina D, quase sempre com o mesmo apelo de rótulo — “aumenta a testosterona naturalmente”. A revisão mais completa já publicada sobre esses produtos mostra outra coisa: a maioria não eleva o hormônio de forma relevante, e as exceções nascem quase sempre de corrigir uma deficiência que já existia, não de estimular um homem com nível normal.
O que os suplementos resolvem — e o que só o exame de sangue decide
O que faz: zinco e vitamina D corrigem a queda de testosterona documentada em quem já está deficiente do nutriente — Prasad et al. (1996) reverteu a queda em homens com deficiência de zinco, e Pilz et al. (2011) viu aumento com vitamina D em homens com sobrepeso.
O que não faz: os mesmos suplementos não elevam nada em quem já tem o nutriente normal — Lerchbaum et al. (2017) não encontrou nenhuma mudança na testosterona de homens saudáveis suplementados com vitamina D em dose alta.
O que define o caso: a dosagem sérica do próprio nutriente — zinco, vitamina D — antes de suplementar, porque é esse número, não o sintoma nem a idade, que separa quem tem deficiência de quem não tem.
Quem não deve seguir sozinho: homem com testosterona baixa confirmada não deve tentar corrigir com suplemento antes de saber a causa — a revisão de Morgado et al. (2023) mostra que a maioria dos “boosters” (ácido D-aspártico, tribulus, feno-grego) não eleva o hormônio, e suplemento não substitui investigar por que a testosterona está baixa.
O que a revisão mais completa encontrou
Morgado et al. (2023, International Journal of Impotence Research) reuniram 52 estudos testando 27 substâncias vendidas como “testosterone booster”. O resultado agregado: a maior parte falha em elevar a testosterona total. As exceções identificadas — HMB (β-hidroxi-β-metilbutirato) e betaína — apareceram em atletas do sexo masculino, população e contexto que não têm relação com o homem sedentário tomando cápsula esperando mais libido ou energia. Dos 27 ingredientes revisados, dez tinham estudo com colecalciferol (vitamina D), cinco com zinco/magnésio, quatro com tribulus terrestris e com creatina — o resto, um ou dois estudos isolados, evidência fina demais para qualquer alegação de rótulo.
Ácido D-aspártico: funcionou uma vez, e não repetiu
O ácido D-aspártico é o composto mais vendido como “booster” puro. Melville et al. (2017, PLOS ONE) testaram 6 g por dia contra placebo em 22 homens treinados em musculação havia pelo menos dois anos, ensaio randomizado, duplo-cego, ao longo de 12 semanas de treino supervisionado. Não houve efeito significativo sobre a testosterona sérica, nem sobre os ganhos de treino. O resultado positivo que sustenta a fama do ingrediente vem de um estudo anterior, com homens sem histórico de treino — em homem treinado, o mesmo protocolo não reproduziu o achado.
Tribulus terrestris: popular, sem sustentação
Uma revisão sistemática de 2025 (Nutrients) reuniu dez estudos clínicos com tribulus terrestris, 483 participantes de 16 a 70 anos. Oito dos dez não relataram mudança significativa no perfil androgênico — e os poucos que relataram efeito partiam de homens com disfunção erétil ou testosterona já baixa no início, não de homem saudável. Metade dos estudos teve qualidade metodológica baixa pelo escore Jadad. Não há evidência robusta de que o tribulus eleve testosterona em homem com nível normal.
Feno-grego: o exemplo que expõe a armadilha do rótulo
O feno-grego é o caso mais citado a favor — e o mais útil para entender a diferença entre “melhorou no estudo” e “eleva a testosterona de forma clinicamente relevante”. Mansoori et al. (2020, Phytotherapy Research), meta-análise de quatro ensaios clínicos, encontrou efeito estatisticamente significativo em doses de 500 a 600 mg. Mas um ensaio randomizado, duplo-cego, mais recente (2024) testou 0, 600, 1.200 e 1.800 mg/dia em 95 homens de 40 a 80 anos por 12 semanas: a testosterona plasmática subiu em relação à linha de base em todas as doses, mas nenhuma dose superou o placebo — o placebo subiu quase o mesmo tanto. Só a testosterona salivar, medida diferente e menos padronizada, superou o placebo. É o padrão que se repete em quase todo estudo positivo desse mercado: comparar contra o próprio início do estudo — efeito de expectativa, dieta melhor durante o ensaio, regressão à média — não é o mesmo que comparar contra quem tomou pílula de farinha. Só o segundo desenho prova que o ingrediente fez alguma coisa.
Zinco e vitamina D: a exceção tem endereço
Zinco e vitamina D são os dois casos em que a literatura mostra efeito real — mas restrito a quem já está deficiente. Prasad et al. (1996, Nutrition) mediu dois grupos pequenos: 4 homens jovens sob dieta restrita em zinco por 20 semanas, com testosterona caindo de 39,9 para 10,6 nmol/L, e 9 idosos com deficiência marginal de zinco suplementados por 3 a 6 meses, subindo de 8,3 para 16,0 nmol/L. Amostra mínima, e o valor basal dos jovens é anômalo — mas o padrão é consistente: o mineral corrige a queda de quem partiu de falta dele, não empurra para cima quem já tem zinco normal.
Com vitamina D o quadro é parecido. Pilz et al. (2011, Hormone and Metabolic Research) deram 3.332 UI/dia por um ano a 31 homens com sobrepeso (23 no placebo) e viram a testosterona total subir de 10,7 para 13,4 nmol/L. Mas Lerchbaum et al. (2017, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism), ensaio maior e mais rigoroso — 98 homens saudáveis, testosterona normal, 20.000 UI/semana por 12 semanas —, não encontrou nenhuma mudança na testosterona. A diferença entre os dois desenhos é a variável que decide o resultado: população com sobrepeso e provável baixa vitamina D basal responde; homem saudável com testosterona já normal, não.
Por que esse mercado não precisa provar que funciona
Suplemento alimentar é categoria regulatória diferente de medicamento. No Brasil, a RDC 243/2018 da Anvisa trata o suplemento como produto destinado a complementar a alimentação de indivíduo saudável — não exige os ensaios clínicos de eficácia que um remédio precisa apresentar para obter registro sanitário como medicamento. Um fabricante pode vender cápsula de tribulus com a promessa “booster de testosterona” citando um estudo isolado e favorável, sem nunca ter testado o próprio produto, na própria dose, contra placebo. É a lacuna que separa o rótulo do que a ciência efetivamente sustenta.
Resumindo
Dos ingredientes vendidos como “testosterone booster”, só zinco e vitamina D têm efeito documentado sobre a testosterona — e apenas em quem começa deficiente do nutriente, não em quem já está na faixa normal. Ácido D-aspártico não repetiu o efeito em homem treinado, tribulus não sustenta a alegação em homem saudável, e o caso mais promissor do feno-grego perde força assim que se compara contra placebo em vez de contra o próprio início do estudo. Antes de comprar qualquer um desses produtos, vale menos perguntar que estudo defende isso e mais perguntar se esse estudo comparou contra placebo, e se o leitor se parece com quem foi testado.
Perguntas frequentes
Booster de testosterona funciona mesmo?
Para a maioria dos ingredientes vendidos assim — ácido D-aspártico, tribulus terrestris, entre outros — não. A revisão sistemática de Morgado et al. (2023) reuniu 52 estudos com 27 substâncias e concluiu que a maior parte falha em elevar a testosterona total em homens. As exceções documentadas aparecem em contextos específicos, não como efeito genérico da cápsula.
Qual suplemento realmente aumenta a testosterona?
Zinco e vitamina D têm o efeito mais consistente na literatura, mas só em homens que partem de deficiência do nutriente. Prasad et al. (1996) mostrou reversão da queda de testosterona ao corrigir deficiência de zinco, e Pilz et al. (2011) viu aumento com vitamina D em homens com sobrepeso. Em homem já repleto do nutriente, o mesmo suplemento não eleva nada — como mostrou o ensaio de Lerchbaum et al. (2017) em homens saudáveis com testosterona normal.
Feno-grego aumenta a testosterona de verdade?
Depende do desenho do estudo consultado. Uma meta-análise de 2020 (Mansoori et al.) encontrou efeito positivo, mas um ensaio randomizado mais recente, de 2024, mostrou que a testosterona plasmática subiu em todas as doses testadas — só que o grupo placebo subiu quase o mesmo tanto. Sem superar o placebo, o resultado não comprova que o feno-grego tenha feito a diferença.
Por que um suplemento pode ser vendido como "booster de testosterona" sem provar que funciona?
Porque suplemento alimentar é regulado como categoria de alimento para pessoa saudável, não como medicamento. No Brasil, a RDC 243/2018 da Anvisa não exige do fabricante os ensaios clínicos de eficácia que um remédio precisa apresentar para registro sanitário — o rótulo pode citar um estudo isolado favorável sem ter testado o próprio produto.
Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.