Espermograma: o que é motilidade e por que ela importa
Motilidade é o parâmetro que decide se o espermatozoide consegue nadar até o óvulo — e só a fração progressiva conta para isso. Veja a classificação da OMS, o que causa astenozoospermia e por que motilidade baixa não depende de a concentração estar alterada.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Foto: Mikhail Nilov / Pexels
“Espermograma alterado” costuma vir com uma lista de siglas — concentração, morfologia, motilidade — e motilidade é a que mais gera dúvida, porque o laudo não entrega um número só: vem dividido em frações, e ler isso como uma média única esconde justamente o que importa.
O que a motilidade progressiva revela — e o que só a concentração separada confirma
O que faz: mede a fração de espermatozoides capazes de nadar em linha reta ou em círculo largo — só essa fração progressiva (PR) consegue atravessar o muco cervical e chegar até o óvulo.
O que não faz: motilidade baixa isolada não fecha diagnóstico nem impede gravidez natural sozinha. Ela entra no quadro clínico do casal junto com concentração, morfologia e tempo de tentativa.
O que define o caso: a contagem separada de PR, NP e IM em pelo menos 200 células, seguindo o protocolo da OMS. Motilidade total normal com progressiva abaixo de 30% é resultado que pede atenção, mesmo parecendo tranquilizador à primeira vista.
Quem não deve seguir sozinho: quem tem motilidade progressiva consistentemente abaixo de 30% associada a varicocele, infecção do trato genital ou tabagismo acima de 10 cigarros por dia — causas que pedem avaliação médica, não só repetição do exame.
Os três grupos da classificação da OMS
O manual de análise do sêmen humano da Organização Mundial da Saúde, na 6ª edição (2021), separa os espermatozoides móveis em três categorias. Progressiva (PR): nadam em linha reta ou em círculo largo, avançando de fato. Não progressiva (NP): se mexem — batem o flagelo, giram no lugar, fazem círculo apertado — mas sem deslocar o corpo para frente. Imóvel (IM): sem nenhum movimento.
O valor de referência da 6ª edição é 30% para motilidade progressiva e 42% para motilidade total (PR somada a NP). Esses números vêm do quinto percentil de uma população de 3.589 homens férteis, de 13 países, cujas parceiras engravidaram por conta própria em até 12 meses — não é a média do grupo, é o piso abaixo do qual só 5% dos férteis caíram. A própria OMS reforça que esse corte não separa homem fértil de infértil: é um sinal para investigar, não um veredito isolado.
Por que só a fração progressiva conta pra fertilização natural
Um espermatozoide que gira no lugar ou bate o flagelo sem avançar (NP) não atravessa o muco cervical nem percorre a trompa até o óvulo — fisicamente, ele não sai do ponto de partida. É por isso que o laudo separa PR do resto: a motilidade total (42%) descreve quanto do sêmen está vivo e se mexendo, mas é a motilidade progressiva (30%) que descreve quanto tem chance real de chegar lá. Um resultado com motilidade total normal e progressiva baixa não é bom sinal disfarçado — é o parâmetro que decide a fertilização natural vindo abaixo da referência, mesmo que o total pareça tranquilizador à primeira vista.
Na prática do laboratório, essa separação é contagem, não estimativa a olho. O técnico classifica cada espermatozoide observado — PR, NP ou IM — numa amostra de pelo menos 200 células, seguindo o protocolo do manual da OMS, e o resultado é a proporção de cada categoria sobre o total contado. É um número reprodutível entre laboratórios que seguem o mesmo protocolo, não uma impressão de quem está no microscópio.
O que é astenozoospermia — e o que muda quando ela aparece
O termo segue em uso na prática clínica e em artigos científicos para descrever motilidade abaixo da referência, embora a 6ª edição do manual da OMS tenha deixado de empregar rótulos como esse — a justificativa do próprio manual é que fértil e infértil não se separam por um corte único, e o achado precisa ser lido junto com o resto do quadro. Dito isso, quando a motilidade progressiva aparece consistentemente baixa, algumas causas concentram a maior parte dos casos.
Varicocele. A dilatação das veias do plexo pampiniforme eleva a temperatura escrotal — cerca de 1 a 1,8°C acima do normal já é suficiente para comprometer a espermatogênese — e aumenta a produção local de espécies reativas de oxigênio, que danificam a membrana e o flagelo do espermatozoide. É a causa cirurgicamente corrigível mais associada a motilidade baixa.
Infecção do trato genital. Quando há leucócitos em excesso no sêmen (leucocitospermia), a resposta inflamatória libera as mesmas espécies reativas de oxigênio da varicocele, por um mecanismo diferente — o chamado “surto oxidativo” de neutrófilos e macrófagos combatendo a infecção acaba de passagem prejudicando a motilidade dos espermatozoides que passam pela região.
Tabagismo. Sozinho, afeta morfologia e motilidade. Combinado com varicocele, o efeito se soma: Al-Ali e Eredics (2017, Wiener Klinische Wochenschrift, 715 pacientes) encontraram efeito sinérgico significativo do tabagismo sobre a motilidade em homens com varicocele (p = 0,03) — mas só acima de 10 cigarros por dia. Abaixo disso, fumar não piorou o quadro de forma mensurável em relação ao não fumante com varicocele.
Tempo de abstinência. Levitas et al. (2005, Fertility and Sterility, 9.489 amostras) mostraram que a motilidade cai conforme a abstinência se prolonga: em amostras normozoospérmicas, a média foi de 42,1% no dia 0-1 de abstinência e caiu para 33,1% entre os dias 11 e 14. Não é causa de doença — é viés de coleta, e o motivo pelo qual o exame pede um intervalo de abstinência padronizado antes de colher a amostra.
Motilidade não é a mesma coisa que concentração
São dois parâmetros medidos separadamente, sem depender um do outro. A referência de concentração da mesma edição da OMS é 16 milhões de espermatozoides por mililitro — um número que fala sobre quantidade, não sobre movimento. Um homem pode ter esse volume normal e, dentro dele, uma fração pequena se movendo de forma progressiva. O inverso também acontece: concentração abaixo da referência com a fração móvel toda progressiva. Dois laudos com a mesma contagem de espermatozoides por mililitro podem descrever fertilidade funcional bem diferente, dependendo de quantos daqueles espermatozoides realmente nadam para a frente. É por isso que nenhum dos dois parâmetros, isolado, fecha a leitura do exame — e por isso um espermograma com “concentração normal” no resumo do laudo ainda pode esconder motilidade baixa logo na linha de baixo.
Resumindo
A motilidade que decide a fertilização natural é a progressiva (PR) — 30% na referência da OMS de 2021, medida à parte da motilidade total (42%) e à parte da concentração. Varicocele, infecção, tabagismo acima de 10 cigarros por dia e abstinência prolongada (Levitas et al., 2005, 9.489 amostras) estão entre as causas mais associadas a motilidade baixa, cada uma por um mecanismo diferente — temperatura, oxidação, ou simplesmente o tempo entre coletas. O ponto que mais escapa da leitura popular do laudo: concentração normal não garante motilidade normal, são medidas independentes, e é a progressiva — não o total — que precisa ser lida com atenção.
Perguntas frequentes
O que significa motilidade progressiva baixa no espermograma?
Significa que a fração de espermatozoides capazes de nadar em linha reta ou em círculo largo — a única que avança de fato — ficou abaixo de 30%, o valor de referência da OMS (6ª edição, 2021). Isso não é diagnóstico fechado nem impede gravidez natural sozinho: o laudo entra no quadro clínico do casal, junto com concentração, morfologia e tempo de tentativa.
O que é astenozoospermia?
É o termo clínico usado na literatura para motilidade abaixo dos valores de referência — hoje, motilidade total sob 42% ou progressiva sob 30%. A própria OMS abandonou o rótulo na 6ª edição do manual, porque a distinção fértil/infértil não é um corte binário; o termo segue em uso corrente entre médicos e em artigos científicos como forma abreviada de descrever esse achado.
Varicocele sempre causa motilidade baixa?
Não sempre, mas é uma das causas mais associadas. A varicocele eleva a temperatura escrotal e aumenta o estresse oxidativo local, dois mecanismos que danificam a membrana e o flagelo do espermatozoide. Nem todo homem com varicocele tem motilidade alterada — a extensão do efeito varia com o grau da dilatação venosa e o tempo de exposição.
Motilidade baixa com concentração normal é possível?
Sim. São parâmetros medidos de forma independente no espermograma — um homem pode ter volume normal de espermatozoides por mililitro e, entre eles, uma fração pequena se movendo de forma progressiva. É por isso que o laudo nunca deve ser lido só pela concentração: dois homens com a mesma contagem podem ter fertilidade funcional bem diferente.
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