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Espermograma

Espermograma normal: como ler os valores de referência

A tabela da OMS não é uma régua de aprovado/reprovado — é o percentil 5 de uma população de homens férteis. Veja os sete parâmetros da 6ª edição do manual, o que cada limiar mede e por que um valor levemente abaixo dele não fecha diagnóstico sozinho.

Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Espermograma

Foto: Pavel Danilyuk / Pexels

“Espermograma normal” é a frase que a maioria digita depois de receber o laudo — e ela sugere que existe uma linha única separando aprovado de reprovado. Não existe essa linha. O que existe é uma tabela com sete parâmetros, cada um com o próprio limiar, publicada na 6ª edição do manual da Organização Mundial da Saúde (OMS) para análise de sêmen humano, de 2021. Entender o que cada número da tabela mede — e o que ele não significa sozinho — é o que evita ler um laudo alterado como sentença.

O que a tabela resolve — e o que só a repetição do exame resolve

O que faz: A tabela da 6ª edição do manual da OMS (2021) dá sete parâmetros de referência — volume, concentração, número total, motilidade total e progressiva, morfologia e vitalidade — construídos a partir do percentil 5 de cerca de 3.500 homens que já comprovaram fertilidade, servindo como régua de comparação para o seu resultado.

O que não faz: Não separa “fértil” de “infértil” com uma linha única. Por definição estatística, cerca de 5% dos homens férteis dessa mesma população de referência ficam abaixo do limiar em pelo menos um parâmetro — estar fora da tabela não é diagnóstico de infertilidade.

O que define o caso: A repetição do exame com pelo menos um mês de intervalo, recomendada pela diretriz AUA/ASRM (2020, atualizada em 2024), somada à leitura conjunta dos sete parâmetros — não um único valor isolado.

Quem não deve seguir sozinho: Quem tem mais de um parâmetro alterado em exames repetidos, ou está há 12 meses (6 se a parceira tem 35 anos ou mais) tentando engravidar sem sucesso, precisa de avaliação médica — não de reler a mesma tabela em busca de tranquilidade.

A tabela de referência da 6ª edição da OMS

A OMS constrói esses limiares a partir de uma população de referência: cerca de 3.500 homens férteis, reunindo dados de estudos anteriores somados a uma coorte nova de 1.789 homens, todos com parceiras que engravidaram naturalmente em até 12 meses de tentativa. Não é a população geral — é homem que já demonstrou fertilidade. O valor publicado é o percentil 5 dessa amostra.

Parâmetro Limiar inferior (percentil 5)
Volume do ejaculado 1,4 mL
Concentração espermática 16 milhões/mL
Número total de espermatozoides 39 milhões por ejaculado
Motilidade total 42%
Motilidade progressiva 30%
Morfologia normal 4%
Vitalidade (espermatozoides vivos) 54%

Cada linha mede uma coisa diferente. Volume é quanto sêmen sai no ejaculado — abaixo de 1,4 mL pode refletir coleta incompleta, período curto de abstinência antes do exame ou obstrução parcial das vias seminais. Concentração e número total parecem a mesma coisa e não são: concentração é densidade (espermatozoides por mL), número total multiplica essa densidade pelo volume — um homem pode ter concentração normal e número total baixo se o volume for pequeno, ou o inverso. Motilidade total e progressiva também divergem: total conta todo espermatozoide que se move, progressiva conta só o que nada em linha reta ou em círculo amplo — é essa fração que efetivamente avança em direção ao óvulo, por isso pesa mais na leitura clínica. Morfologia (o critério estrito que define os 4% e o motivo do limiar ser tão baixo é assunto para outro artigo do dossiê) e vitalidade fecham a tabela: vitalidade mede o percentual de células vivas, separado da motilidade porque um espermatozoide pode estar vivo e parado.

Vale notar que esses números não são a primeira versão da tabela, e mudaram pouco desde a anterior. A 5ª edição do manual, de 2010, já trazia limiares parecidos — volume de 1,5 mL, concentração de 15 milhões/mL, motilidade progressiva de 32% — construídos sobre uma população de referência menor. A 6ª edição não reescreveu o critério: somou a essa base uma coorte nova de 1.789 homens férteis e recalculou o percentil 5 em cima de uma amostra maior. Os limiares se moveram pouco porque a definição por trás deles não mudou — o que melhorou foi a precisão da estimativa, não o conceito.

O que “normal” significa nesse número

O valor que separa “dentro” de “fora” da tabela não é um ponto de corte médico de infertilidade — é um limiar estatístico. Paffoni et al. (2022, Human Reproduction) reexaminaram a base estatística da população de referência da 6ª edição e reforçaram o que o próprio manual da OMS já registra: os valores de percentil 5 são uma forma de interpretar o resultado, não uma linha que separa homem fértil de infértil.

O motivo está na definição do próprio percentil: por construção, cerca de 5% dos homens que já comprovaram fertilidade — cuja parceira engravidou naturalmente em até um ano — têm ao menos um parâmetro abaixo do limiar publicado. Estar abaixo da linha, portanto, é compatível com fertilidade normal numa fração conhecida e esperada da própria população de referência. O limiar diz que aquele valor é incomum nessa amostra de homens férteis — não que ele impede a gravidez.

Um valor levemente abaixo do limiar

Um parâmetro fora da tabela em um único exame não fecha diagnóstico sozinho, porque a produção de espermatozoides varia por natureza — de uma coleta para outra, no mesmo homem, sem nenhuma doença nova entre elas. A diretriz conjunta da American Urological Association e da American Society for Reproductive Medicine (AUA/ASRM, 2020, atualizada em 2024) recomenda pelo menos duas análises, com um mês de intervalo, principalmente quando o primeiro resultado veio alterado — a repetição existe para separar variação biológica normal de alteração real.

Tempo de abstinência antes da coleta, intervalo entre ejaculações, febre recente, uso de certos medicamentos e até o laboratório que processa a amostra interferem no número final. Por isso um valor isolado, levemente abaixo do limiar, pede repetição — a decisão clínica depende do conjunto dos parâmetros e do histórico do casal, não de uma linha isolada da tabela.

Resumindo

A tabela da OMS (6ª edição, 2021) tem sete números — 1,4 mL de volume, 16 milhões/mL de concentração, 39 milhões de número total, 42% de motilidade total, 30% de progressiva, 4% de morfologia normal e 54% de vitalidade —, todos derivados do percentil 5 de cerca de 3.500 homens que já comprovaram fertilidade. Estar abaixo de qualquer um deles é incomum nessa amostra, não é diagnóstico de infertilidade — e a própria estatística garante que uma fração de homens férteis vai cair abaixo da linha em pelo menos um parâmetro. Valor isolado abaixo do limiar pede repetição do exame, com intervalo de um mês, antes de qualquer conclusão.

Perguntas frequentes

Espermograma com um valor abaixo do normal significa infertilidade?

Não necessariamente. Os valores da OMS são o percentil 5 de uma população de homens que já tiveram filho naturalmente — por definição estatística, uma fração desses homens férteis também fica abaixo do limiar em pelo menos um parâmetro. Um valor isolado alterado pede repetição do exame e avaliação do quadro completo, não é diagnóstico fechado sozinho.

Qual é o valor normal de concentração de espermatozoides?

O limiar inferior da 6ª edição do manual da OMS (2021) é 16 milhões de espermatozoides por mL. Abaixo disso o exame classifica como oligozoospermia, mas o número precisa ser lido junto com volume, motilidade e morfologia — concentração baixa com os demais parâmetros normais tem peso clínico diferente de concentração baixa somada a outras alterações.

Quantas vezes preciso repetir o espermograma para confirmar um resultado alterado?

A diretriz da American Urological Association e da American Society for Reproductive Medicine (AUA/ASRM, 2020, atualizada em 2024) recomenda pelo menos duas análises, com um mês de intervalo entre elas, principalmente quando a primeira veio alterada. A produção de espermatozoides varia naturalmente entre coletas no mesmo homem, e a repetição existe para separar essa variação de uma alteração real.

Qual a diferença entre motilidade total e motilidade progressiva no espermograma?

Motilidade total conta todo espermatozoide que se move, de qualquer forma. Motilidade progressiva conta só o que nada em linha reta ou em círculo amplo — a fração que efetivamente avança em direção ao óvulo. Por isso a progressiva tem limiar mais baixo (30%) que a total (42%) e costuma pesar mais na leitura clínica do laudo.

Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.