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Espermograma

Como ler o resultado do espermograma

O laudo chega cheio de palavras em "-zoospermia" que ninguém explica no papel. Veja o que cada termo diagnóstico realmente significa, por que boa parte desse vocabulário nem está no manual atual da Organização Mundial da Saúde, e como o médico combina vários termos no mesmo laudo para fechar uma leitura.

Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Espermograma

“Veio um monte de palavra em ‘-zoospermia’ e eu não entendi nada” é a reclamação mais comum de quem pega o laudo do espermograma na mão pela primeira vez. O papel não é confuso por acidente — ele usa uma nomenclatura própria, pensada para caber num relatório técnico, e nenhum desses termos vem traduzido ali. Este texto decodifica o vocabulário, não a tabela de números: para os valores de referência de concentração, motilidade e morfologia, há outro artigo do dossiê dedicado só a isso.

O que o vocabulário do laudo resolve — e o que só a combinação de termos revela

O que faz: Cada termo do laudo — normo, oligo, cripto, azoo, asteno, terato, necro — nomeia isoladamente um eixo específico: quantidade, presença, movimento ou forma dos espermatozoides.

O que não faz: Nenhum desses termos, sozinho, fecha diagnóstico de infertilidade — a própria 6ª edição do manual da OMS (2021) abandonou essa nomenclatura categórica, embora laboratórios ainda a imprimam por tradição.

O que define o caso: A combinação de dois ou três termos no mesmo laudo — o padrão mais comum é a síndrome OAT (oligoastenoteratozoospermia) — repetida em mais de uma amostra e lida junto do histórico clínico do casal.

Quem não deve seguir sozinho: Quem recebe um laudo com termos combinados, ou com azoospermia (ausência total confirmada por centrifugação), precisa de investigação médica adicional para descobrir a causa — obstrução ou falha de produção têm condutas bem diferentes, e o papel sozinho não distingue as duas.

O vocabulário do laudo nem está no manual em vigor

A referência internacional para análise de sêmen é o manual de laboratório da Organização Mundial da Saúde, hoje na 6ª edição (2021). E o detalhe que inverte a expectativa de quem lê o laudo: ao longo das cerca de 280 páginas dessa edição, termos como “normozoospermia”, “astenozoospermia”, “necrozoospermia” e “teratozoospermia” simplesmente não aparecem (Boitrelle et al., 2021, revista Life). Os editores substituíram os antigos “valores normais” por “limites de decisão” baseados no 5º percentil de homens com fertilidade comprovada, argumentando que um único parâmetro abaixo do corte, isolado, não fecha diagnóstico de infertilidade masculina sozinho.

Só que a prática clínica não acompanhou a mudança no mesmo ritmo. Boitrelle et al. (2021) já observam que é improvável que a ausência desses rótulos no manual atual elimine seu uso no consultório — os laboratórios seguem imprimindo essa nomenclatura porque ela é um atalho prático, herdado de edições anteriores (a 5ª, de 2010, e as que vieram antes dela). Na prática, o vocabulário que você vê no papel é jargão consolidado por décadas de uso, não um capítulo do manual que está valendo agora.

O que cada termo de quantidade significa

Normozoospermia — todos os parâmetros medidos (concentração, motilidade, morfologia, volume) dentro do limite de referência adotado pelo laboratório. É a classificação de que nenhum parâmetro isolado saiu do esperado, não uma confirmação de fertilidade.

Oligozoospermia — concentração de espermatozoides abaixo do limite inferior de referência. O corte histórico, fixado pela 5ª edição do manual da OMS (Cooper et al., 2010, Human Reproduction Update), é de 15 milhões de espermatozoides por mililitro — ainda o número que a maioria dos laboratórios usa na prática, mesmo depois da 6ª edição ter mudado a forma de apresentar o limite.

Criptozoospermia — uma variante extrema da oligozoospermia. Nenhum espermatozoide aparece no exame direto da amostra, e só é possível encontrar algum depois de centrifugar e concentrar o material no fundo do tubo. A literatura de andrologia costuma situar esse quadro abaixo de 100 mil espermatozoides por mililitro — é uma convenção clínica consolidada pelo uso, não um corte formal escrito no manual da OMS.

Azoospermia — ausência completa de espermatozoides no ejaculado, confirmada mesmo depois da centrifugação (é essa etapa que separa uma azoospermia real de uma criptozoospermia mal investigada). É a única categoria de quantidade que não é “pouco”, é “zero” — por isso o laudo, sozinho, costuma vir acompanhado de pedido de repetição e investigação adicional antes de qualquer conclusão.

O que cada termo de qualidade significa

Astenozoospermia — percentual de espermatozoides com motilidade progressiva abaixo do limite de referência. O corte clássico, também de Cooper et al. (2010), era 32% — o parâmetro mede quantos espermatozoides nadam para frente de forma organizada, não quantos apenas se mexem sem sair do lugar.

Teratozoospermia — percentual de espermatozoides com morfologia normal abaixo do limite, avaliado pelo critério estrito de Kruger (também chamado critério de Tygerberg), com corte histórico de 4% de formas normais. É o parâmetro mais discutido da andrologia, porque a leitura da morfologia depende de quem está analisando a lâmina no microscópio, e a variação entre técnicos costuma ser maior do que nos outros parâmetros do laudo.

Necrozoospermia — percentual de espermatozoides vivos abaixo do limite de referência (a 5ª edição do manual exigia viabilidade mínima de 58%). É um termo diferente de astenozoospermia: um espermatozoide pode estar vivo e simplesmente parado, então o laboratório precisa de um teste de vitalidade específico — coloração ou teste hipo-osmótico — para diferenciar as duas situações, e não todo laudo pede esse teste de rotina.

Quando o laudo junta vários termos no mesmo resultado

É raro um laudo trazer só um desses termos isolado. O mais comum é ver dois ou três combinados na mesma linha — concentração baixa, motilidade reduzida e morfologia alterada juntas formam o que a literatura de infertilidade masculina chama de síndrome OAT (oligoastenoteratozoospermia), o padrão mais frequente entre homens investigados por infertilidade. O nome comprido nada mais é do que a soma dos três termos isolados que este artigo já definiu, escritos em sequência.

Essa junção é o ponto que menos aparece explicado ao paciente: nenhum desses termos, sozinho, fecha um diagnóstico de infertilidade. O manual da OMS abandonou a nomenclatura categórica justamente porque um parâmetro abaixo do corte, isolado, tem valor preditivo limitado — é a combinação de vários parâmetros alterados, repetida em mais de uma amostra e lida junto do histórico clínico, que orienta a investigação. Um homem pode ter leve oligozoospermia isolada e engravidar a parceira sem intervenção; outro pode ter todos os parâmetros dentro da faixa e ainda assim enfrentar infertilidade por causa que o espermograma não capta.

Resumindo

O vocabulário do laudo — normo, oligo, cripto, azoo, asteno, terato, necro — nomeia isoladamente quatro eixos (quantidade, presença, movimento e forma), mas boa parte dele nem está mais no manual da OMS em vigor: a 6ª edição (2021) trocou “valores normais” por “limites de decisão” e parou de usar esses rótulos, embora laboratórios continuem imprimindo-os por tradição (Boitrelle et al., 2021). Quando o laudo combina dois ou três termos na mesma linha — o padrão mais comum sendo a síndrome OAT —, está descrevendo várias faixas alteradas ao mesmo tempo, não fechando sozinho um veredito de infertilidade. Cada palavra do papel é um dado técnico para o médico somar a outros exames e ao histórico do casal, não uma sentença que se lê isolada.

Perguntas frequentes

O que significa normozoospermia no espermograma?

Significa que todos os parâmetros medidos na amostra — concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides — ficaram dentro do limite de referência do laboratório. Não é uma garantia de fertilidade, só a informação de que nenhum parâmetro isolado saiu abaixo do corte adotado no laudo.

Qual a diferença entre oligozoospermia e criptozoospermia?

As duas descrevem concentração baixa de espermatozoides, mas em graus diferentes. Na oligozoospermia, o laboratório consegue contar os espermatozoides na amostra normal, só que abaixo do limite de referência. Na criptozoospermia, o quadro é mais severo: nenhum espermatozoide aparece no exame direto, e só é possível encontrar algum depois de centrifugar e concentrar o material.

Azoospermia no laudo já significa infertilidade permanente?

Azoospermia significa ausência de espermatozoides no ejaculado confirmada após centrifugação — mas o laudo sozinho não diz por que isso aconteceu. A causa pode ser uma obstrução no trajeto (situação frequentemente contornável) ou uma falha na produção testicular, e só investigação médica adicional, não o resultado impresso, distingue as duas.

Por que dois laboratórios usam termos diferentes para o mesmo resultado?

Porque nem todo laboratório segue a mesma edição do manual da Organização Mundial da Saúde nem o mesmo corte numérico para cada termo. A 6ª edição (2021) inclusive parou de usar essa nomenclatura diagnóstica — laboratórios que ainda escrevem "astenozoospermia" ou "teratozoospermia" no laudo estão aplicando convenção herdada de edições anteriores, não uma norma única e atual.

Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.