TGO e TGP no exame de sangue: o que essas enzimas dizem sobre o fígado
TGO é AST e TGP é ALT — mesmo exame, dois nomes. O que muda a leitura não é o resultado estar fora da faixa, é quantas vezes acima do limite ele está, e o que a GGT, a bilirrubina e a fosfatase alcalina mostram junto. Veja como a diretriz separa cada padrão e por que a faixa de referência do seu laudo não é a mesma de outro laboratório.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 06 de agosto de 2026 · 9 min de leitura · Como avaliamos a evidência

“TGP alta”, “TGO alterada”, “exame para ver o fígado” — a busca chega quase sempre depois de um laudo com um número em negrito e uma seta para cima. Antes de qualquer interpretação, vale resolver a confusão que atrapalha metade dessas leituras: TGO e AST são o mesmo exame, e TGP e ALT também. São nomenclaturas de épocas diferentes para as mesmas duas enzimas, e o laudo pode trazer uma, outra ou as duas lado a lado. Quem vê “AST/TGO” e “ALT/TGP” na mesma folha não está diante de quatro dosagens.
O que TGO e TGP resolvem — e o que só a magnitude do painel revela
O que faz: As duas enzimas mostram vazamento de célula — a TGP aponta mais para o fígado, a TGO também aparece em músculo, coração e hemácias.
O que não faz: Não dizem a causa nem a gravidade por conta própria. “Alto” não é uma categoria única: a diretriz do ACG separa de limítrofe (1 a 1,5× o limite) a maciça (acima de 50×), e as causas mudam completamente de uma faixa para outra.
O que define o caso: A razão AST/ALT, se a GGT confirma que a fosfatase alcalina veio do fígado, e a bilirrubina fracionada — o conjunto que separa o padrão hepatocelular do colestático, descrito no próprio texto.
Quem não deve seguir sozinho: Quem vê a seta para cima e não repara na magnitude. ALT acima de 1.000 U/L é outro território: nos 287 casos de Con et al., isquemia hepática respondeu por 44,3% deles e a mortalidade em 28 dias chegou a 30,5% — evento de pronto-socorro, não achado para esperar o próximo check-up.
O que cada uma das duas mede
TGO (AST, aspartato aminotransferase) e TGP (ALT, alanina aminotransferase) são enzimas que ficam dentro das células. Quando a célula sofre dano, elas vazam para o sangue — o exame não mede “função do fígado” no sentido de desempenho, mede vazamento celular. É por isso que um fígado gravemente cirrótico pode ter enzimas quase normais: sobrou pouca célula para vazar.
A diferença entre as duas está em onde cada uma mora. A ALT/TGP está concentrada no fígado, e é o marcador mais específico dele. A AST/TGO existe também em músculo esquelético, coração, rim e hemácias — o que significa que TGO isolada alta, com TGP normal, aponta com frequência para fora do fígado: treino pesado nos dias anteriores, trauma muscular, hemólise da própria coleta.
Essa é a primeira armadilha do laudo. As duas enzimas costumam ser lidas como um par sincronizado, mas o padrão entre elas carrega informação. A diretriz do American College of Gastroenterology (Kwo, Cohen e Lim, 2017, American Journal of Gastroenterology) registra que uma razão AST/ALT acima de 2 sugere doença hepática alcoólica, enquanto nas hepatites virais o padrão típico é o inverso — ALT maior que AST.
Por que o médico pede
O par TGO/TGP entra em quatro cenários principais: investigar sintoma sugestivo (cansaço persistente, dor no quadrante superior direito, icterícia), rastrear alteração em check-up de rotina, acompanhar quem usa medicação de uso contínuo com potencial hepático, e monitorar quem já tem diagnóstico de doença do fígado — gordura hepática, hepatite viral, doença relacionada a álcool.
O achado é mais comum do que a maioria imagina. Cerca de 10% a 20% da população geral tem alguma alteração nas provas hepáticas, e a doença hepática gordurosa (a antiga NAFLD, hoje MASLD) atinge até 30% dos adultos em países desenvolvidos, na maioria das vezes sem sintoma nenhum — o exame de rotina é justamente como ela costuma aparecer.
“Alto” não é uma categoria só
O erro de leitura mais caro é tratar qualquer valor fora da faixa como o mesmo evento. A diretriz do ACG classifica a elevação de aminotransferases por quantas vezes ela ultrapassa o limite superior de normalidade (LSN) do laboratório:
- Limítrofe: 1 a 1,5× o LSN
- Leve: 1,5 a 5× o LSN
- Moderada: 5 a 10× o LSN
- Grave: 10 a 50× o LSN
- Maciça: acima de 50× o LSN
As causas mudam conforme a faixa. Na elevação leve — de longe a mais frequente em exame de rotina —, as duas causas dominantes são a doença hepática gordurosa e o consumo de álcool, segundo a revisão da American Family Physician sobre transaminases levemente elevadas. Medicação de uso contínuo, hepatites virais crônicas, doença celíaca, tireoide e causas musculares completam a lista.
No outro extremo o cenário é diferente, e o número não é sutil. Con et al. (2019, JGH Open) revisaram 388.267 internações agudas em hospitais australianos e encontraram 287 pacientes com ALT acima de 1.000 U/L. As causas: isquemia hepática em 44,3%, medicamentos ou toxinas em 18,8%, obstrução biliar em 16,4% e hepatite viral em apenas 7,3%. A mortalidade em 28 dias foi de 30,5%, concentrada nos casos isquêmicos. Elevação nessa ordem de grandeza é evento agudo de pronto-socorro, não achado de check-up — e a distância entre uma TGP de 60 e uma TGP de 1.200 não é de grau, é de natureza.
A faixa de referência do seu laudo não é universal
Diferente do colesterol, que tem diretriz nacional com metas fixas, enzimas hepáticas não têm um “valor normal” único entre laboratórios. Cada um publica a própria faixa, conforme método analítico, equipamento e população de calibração. As faixas que circulam nos laudos brasileiros giram em torno de 10 a 40 U/L para TGO, 7 a 56 U/L para TGP e 9 a 48 U/L para GGT — mas comparar seu resultado com esses números em vez de com os impressos ao lado dele é o caminho mais curto para um susto sem motivo ou uma falsa tranquilidade.
E há uma discussão em aberto sobre o próprio limite. A diretriz do ACG argumenta que o LSN tradicional de ALT foi calculado a partir de populações que incluíam pessoas com gordura hepática não diagnosticada, e que o normal verdadeiramente saudável seria bem mais baixo: 29 a 33 U/L para homens e 19 a 25 U/L para mulheres. Valores acima disso, na leitura da diretriz, merecem avaliação — mesmo quando o laudo os marca como dentro da faixa porque usa 40 como corte. Não é motivo para autodiagnóstico; é motivo para levar o papel ao médico em vez de arquivá-lo por não ter seta para cima.
GGT: sensível, e é justamente esse o problema
A gama GT (GGT, gama-glutamiltransferase) quase sempre aparece no mesmo pedido, e ela é sensível a lesão hepatobiliar — praticamente qualquer coisa que incomode o fígado ou as vias biliares a levanta. O reverso é que ela não distingue quase nada sozinha.
Como marcador de consumo de álcool, que é a fama que ela carrega, o desempenho é limitado. A revisão publicada no Scandinavian Journal of Clinical and Laboratory Investigation (2010) registra sensibilidade relatada entre 15% e 85%, e descreve o que é preciso para movê-la: uma ingestão diária na faixa de 80 a 200 g de álcool por várias semanas — algo entre seis e catorze doses padrão por dia. A normalização leva de 2 a 5 semanas depois da interrupção. GGT normal não descarta consumo de álcool, e GGT alta não o comprova.
A lista de medicamentos que a elevam por indução enzimática, sem lesão hepática nenhuma, é longa: fenobarbital, fenitoína, carbamazepina, valproato, entre outros. Gordura no fígado também a eleva.
O uso mais sólido da GGT é comparativo, e é para isso que a diretriz do ACG a recomenda: quando a fosfatase alcalina está alta, a GGT alta junto confirma que aquela fosfatase veio do fígado ou das vias biliares, e não do osso.
Bilirrubina e fosfatase alcalina, os dois que completam o painel
O painel hepático raramente para nas transaminases, e os dois marcadores restantes existem para responder uma pergunta que TGO e TGP não respondem: o problema é de célula do fígado ou de escoamento da bile.
A fosfatase alcalina está presente no fígado, nas vias biliares, no osso, no intestino e na placenta. Elevação marcada — acima de cerca de 4× o valor de referência — é típica de colestase, a redução do fluxo de bile, seja por obstrução (cálculo, tumor) ou por doença dentro do próprio fígado. Como o osso é a outra fonte grande, a confirmação de origem hepática passa pela GGT, como acima.
A bilirrubina vem da degradação das hemácias e é fracionada em direta (conjugada) e indireta (não conjugada). O predomínio de uma ou de outra muda a hipótese por completo: bilirrubina direta elevada aponta para dificuldade de excreção — colestase, obstrução biliar, hepatite; bilirrubina indireta elevada aponta para hemólise ou para a síndrome de Gilbert, uma variação genética benigna, comum, que produz icterícia leve em jejum ou estresse e não é doença do fígado.
É a leitura conjunta que define o padrão. A diretriz do ACG chama de hepatocelular o quadro em que AST e ALT sobem desproporcionalmente em relação à fosfatase alcalina, e de colestático o inverso — fosfatase alcalina desproporcionalmente alta em relação às transaminases. São duas investigações diferentes a partir daí, com exames de imagem e sorologias diferentes. Nenhum dos dois padrões se identifica olhando um resultado isolado.
Resumindo
TGO é AST e TGP é ALT — duas enzimas, não quatro, e a TGP é a mais específica do fígado. O que orienta a investigação não é a seta para cima, é a magnitude: elevação leve (até 5× o limite) tem gordura hepática e álcool no topo da lista, enquanto ALT acima de 1.000 é outro universo, onde isquemia respondeu por 44,3% dos 287 casos de Con et al. e a mortalidade em 28 dias chegou a 30,5%. A GGT sobe com álcool, com meia dúzia de medicamentos e com gordura no fígado, e sua sensibilidade relatada de 15% a 85% impede que ela conclua qualquer coisa sozinha — o valor dela está em confirmar se a fosfatase alcalina veio do fígado ou do osso. E a faixa de referência que importa é a impressa no seu laudo, não a de uma tabela genérica: nenhum desses números fecha diagnóstico fora do consultório, e o passo seguinte a um resultado alterado é levá-lo a um médico com a lista do que você toma e do que você bebe.
Perguntas frequentes
TGO e TGP alto significa problema no fígado?
Nem sempre, e o quanto está alto pesa mais que o fato de estar. Elevação leve (até cinco vezes o limite superior) é o achado mais comum e tem como principais causas gordura no fígado e consumo de álcool, segundo a revisão da American Family Physician. A TGO também sobe por origem muscular — exercício intenso, trauma, medicação —, então TGO alta com TGP normal muitas vezes não é fígado. Quem separa isso é o médico, com o quadro clínico e os outros marcadores do mesmo painel.
Qual a diferença entre TGO e TGP?
TGO é o nome antigo da AST (aspartato aminotransferase) e TGP é o nome antigo da ALT (alanina aminotransferase) — o laudo pode trazer qualquer uma das duas nomenclaturas, e não são quatro exames, são dois. A diferença prática é a especificidade: a ALT/TGP está concentrada no fígado, enquanto a AST/TGO também aparece em músculo esquelético, coração e hemácias. Por isso a TGP é o marcador mais específico de lesão do fígado.
O que significa GGT ou gama GT alta?
A GGT é sensível, mas pouco específica: sobe com consumo de álcool, com uso de vários medicamentos (fenobarbital, fenitoína, carbamazepina, valproato, entre outros), com gordura no fígado e com obstrução das vias biliares. A revisão publicada no Scandinavian Journal of Clinical and Laboratory Investigation (2010) registra sensibilidade relatada entre 15% e 85% como marcador de uso de álcool — variação larga demais para que o exame sozinho conclua qualquer coisa. O uso mais confiável dela é comparativo: GGT alta junto com fosfatase alcalina alta indica que a fosfatase veio do fígado, não do osso.
Qual o valor normal de TGO e TGP?
Não existe um valor único válido para todo lugar: cada laboratório publica sua própria faixa, conforme o método e o equipamento que usa. As faixas que costumam aparecer nos laudos brasileiros ficam em torno de 10 a 40 U/L para TGO e 7 a 56 U/L para TGP, mas a diretriz do American College of Gastroenterology (Kwo et al., 2017) argumenta que o normal verdadeiramente saudável de ALT/TGP é mais baixo — de 29 a 33 U/L no homem. Leia sempre a faixa impressa ao lado do seu resultado, não uma tabela da internet.
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