Ginecomastia grau 2: quando o remédio já não resolve
A escala de Simon coloca o grau 2 no meio do caminho — mas ela mede volume e sobra de pele, não há quanto tempo o quadro existe. E é o tempo, não o grau, que determina se o medicamento ainda tem tecido para agir. Veja o que a histologia mostra depois de doze meses e onde a evidência não é unânime.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 7 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Foto: Towfiqu barbhuiya / Pexels
“Grau 2 já é cirurgia” é a conclusão que circula em fórum de academia e em consulta apressada, e ela erra por um motivo bem específico: a escala que define o grau 2 não mede nada daquilo que determina se o remédio ainda funciona. Ela mede volume e pele. Quem decide a resposta ao medicamento é outra variável — o relógio.
O que a escala de Simon resolve — e o que só o tempo de evolução resolve
O que faz: A escala classifica volume de tecido mamário e sobra de pele — grau 2a sem redundância cutânea, 2b com ela — para orientar a técnica cirúrgica quando a cirurgia é o caminho.
O que não faz: Não informa há quanto tempo o quadro existe, e por isso não funciona como cronômetro da resposta ao remédio: um homem pode estar em grau 2 há três meses e outro em grau 1 há seis anos, com chances de resposta ao tamoxifeno bem diferentes.
O que define o caso: O tempo de evolução — fibrose do estroma com poucos ductos depois de cerca de um ano, segundo os 351 casos de Bannayan e Hajdu — e os três critérios que a revisão do American Family Physician lista para indicar cirurgia: duração maior dos sintomas, grau mais alto e intolerância ao medicamento.
Quem não deve seguir sozinho: Quem lê “grau 2” e presume cirurgia automática, ou quem espera resposta garantida ao remédio sem levar em conta quanto tempo o quadro já dura. Essa decisão é do médico, cruzando os três critérios — não a leitura isolada da escala.
O que o grau 2 realmente descreve
A classificação em uso desde 1973 é a de Simon, Hoffman e Kahn (Plastic and Reconstructive Surgery, 51:48-52), e ela ordena a ginecomastia em quatro degraus a partir de dois critérios apenas: volume de tecido mamário e sobra de pele.
Grau 1: aumento pequeno, sem excesso de pele. Grau 2: aumento moderado — e é aqui que a escala se parte em dois. No 2a, o volume cresceu mas a pele acompanhou, sem redundância. No 2b, o mesmo volume, só que a pele já esticou e sobrou. Grau 3: aumento marcado com excesso de pele evidente.
O que separa 2a de 2b, portanto, não é quanta glândula existe — é se a pele ainda se retrai sozinha. E o que separa grau 2 de grau 1 é volume, não idade do quadro. Um homem pode estar em grau 2 há três meses e outro em grau 1 há seis anos. A escala não distingue os dois casos, e é justamente essa distinção que comanda o tratamento clínico.
A própria classificação carrega a imprecisão como limitação reconhecida: a fronteira entre 2a e 2b, e entre 2b e 3, é descrita por adjetivos — “moderado”, “excesso” — sem medida objetiva, e o sistema nunca foi atualizado para incorporar ultrassom ou análise de composição do tecido.
A régua que decide o remédio é o calendário
O tecido da ginecomastia muda de natureza com o tempo, e a mudança é visível na lâmina. A descrição clássica vem do estudo clinicopatológico de Bannayan e Hajdu (1972, American Journal of Clinical Pathology), que examinou 351 casos e separou três padrões histológicos.
Florido: fase inicial, quatro meses ou menos — hiperplasia do epitélio ductal, aumento da vascularização, tecido conjuntivo periductal proliferando, inflamação em volta dos ductos.
Intermediário: a transição, em torno de um ano.
Fibroso: depois de um ano de duração — fibrose do estroma, colágeno denso e hialinizado, e poucos ductos.
A última expressão é a que importa. O medicamento usado em ginecomastia — tamoxifeno é o nome mais citado — age no receptor de estrogênio do epitélio ductal. Quando a lâmina mostra estroma fibroso com poucos ductos, sobrou pouco alvo para ele encontrar. Não é o tecido resistindo ao remédio: é o tecido responsivo não estar mais lá. Por isso a monografia de ginecomastia do StatPearls (NCBI Bookshelf) resume que terapia medicamentosa em geral não funciona em casos de longa data, e por isso a orientação repetida na prática clínica é tentar o remédio cedo, dentro dos primeiros seis a doze meses, antes que a fibrose se estabeleça.
A evidência não é unânime, e isso muda a conversa
Aqui entra a ressalva que quase todo texto sobre grau 2 omite. A revisão sistemática de tratamentos farmacológicos publicada em Frontiers in Pediatrics (2022), que reuniu 24 publicações e cerca de 355 pacientes, registra explicitamente que não existe consenso sobre a duração prévia da ginecomastia e o momento de começar o tratamento. Parte dos estudos incluídos encontrou resposta aos moduladores de receptor de estrogênio independentemente do tempo de doença — inclusive com fibrose de estroma já instalada, como no trabalho de Akgül et al. (2012, Journal of Pediatric Endocrinology and Metabolism), que examinou o efeito histopatológico do tamoxifeno.
Duas ressalvas sobre a ressalva. A revisão é de população pediátrica e adolescente, de 10 a 19 anos, em que a ginecomastia puberal tem história natural própria e regride sozinha em boa parte dos casos — transportar o achado direto para o homem adulto é leitura frouxa. E, entre os próprios estudos que ela reúne, Devoto et al. (2007, Revista Médica de Chile, 135:1558-1565) testaram exatamente a influência do tamanho e da duração sobre a resposta ao tamoxifeno e encontraram 70% de resposta nos quadros com menos de dois anos contra 56% naqueles com dois anos ou mais.
A leitura honesta é essa: o tempo empurra a probabilidade de resposta para baixo, não a zera de um dia para o outro. Menos provável não é sinônimo de impossível, e a marca dos doze meses é um ponto médio de histologia, não uma porta que bate.
Quando o grau 2 vira indicação cirúrgica
A revisão de ginecomastia do American Family Physician (Dickson, 2012, 85(7):716-722) nomeia os três fatores que empurram a decisão para a cirurgia: duração maior dos sintomas, doença de grau mais alto e incapacidade de tolerar o medicamento. São três, e o grau é apenas um deles — o que basta para desmontar a ideia de que grau 2 seja, por si só, indicação.
Fechada a indicação, o grau volta a mandar — só que agora na escolha da técnica. Para grau 1 e 2a, o padrão descrito é lipoaspiração combinada com excisão cirúrgica do tecido glandular, sem tocar na pele: como não há redundância, ela se retrai depois que o volume sai. No 2b, a pele entra na conta. A série retrospectiva de Wolter et al. (2025, Aesthetic Surgery Journal, 45(8):786), com 95 pacientes e 176 mamas operadas entre 2017 e 2023, descreve o padrão para esse subgrupo como mastectomia circum-areolar associada a lipoaspiração — o acesso pela borda da aréola trata glândula e sobra de pele pela mesma incisão, com a cicatriz contida no contorno areolar. No grupo tratado pelo protocolo do estudo, a taxa global de complicações foi de 7,7%, com seguimento médio de 17 meses.
A diferença prática entre 2a e 2b, portanto, não é gravidade — é se o plano precisa incluir a pele. É avaliação de exame físico em consulta, não coisa que se decida por foto.
Resumindo
Grau 2, na escala de Simon (1973), significa aumento moderado, com a subdivisão 2a/2b decidida pela pele e não pela glândula — e a escala não informa há quanto tempo o quadro existe. Quem decide a resposta ao remédio é o tempo: nos 351 casos de Bannayan e Hajdu (1972), o tecido é florido nos primeiros meses e fibroso depois de um ano, e é a queda no número de ductos que tira o alvo do medicamento. A evidência não é unânime — a revisão sistemática de 2022 registra resposta mesmo com fibrose presente em população adolescente, e Devoto et al. (2007) mediram 70% contra 56% conforme o quadro tinha menos ou mais de dois anos. O erro de expectativa mais comum é ler o grau como cronômetro. Ele é régua de tamanho e de pele: a conversa sobre remédio se resolve no calendário, e a conversa sobre técnica cirúrgica, aí sim, no grau.
Perguntas frequentes
Ginecomastia grau 2 some com remédio?
Depende menos do grau e mais do tempo. O grau 2 da escala de Simon (1973) descreve aumento moderado com ou sem sobra de pele — ele não informa há quanto tempo o quadro existe, e é a duração que muda o tecido. Depois de cerca de um ano, a lâmina mostra fibrose do estroma com poucos ductos, e o ducto é onde o medicamento age. A chance de resposta cai, mas não vai a zero: Devoto et al. (2007) mediram 70% de resposta ao tamoxifeno em quadros com menos de dois anos contra 56% naqueles com dois anos ou mais.
Qual a diferença entre ginecomastia grau 2a e 2b?
É a pele, não a glândula. Nos dois o aumento de tecido mamário é moderado; no 2a a pele acompanhou o volume sem sobrar, no 2b ela já esticou e ficou redundante. A distinção não indica gravidade maior — indica se o plano cirúrgico precisa tratar pele além de glândula. Na própria literatura, a fronteira entre 2a e 2b é apontada como imprecisa, porque a classificação de 1973 a descreve por adjetivos ("moderado", "excesso") sem medida objetiva.
Depois de quanto tempo o remédio para ginecomastia não funciona mais?
A referência prática que circula na literatura clínica é doze meses, e ela vem da histologia: no estudo de 351 casos de Bannayan e Hajdu (1972), o tecido é florido nos primeiros quatro meses (ductos proliferando, inflamação em volta) e fibroso depois de um ano (colágeno denso e hialinizado, poucos ductos). Não é uma porta que fecha numa data — é uma média que desloca a probabilidade para baixo à medida que o tempo passa.
Ginecomastia grau 2 precisa de cirurgia?
Não automaticamente. A revisão do American Family Physician (Dickson, 2012) lista três critérios que empurram a decisão para a cirurgia: duração maior dos sintomas, doença de grau mais alto e incapacidade de tolerar o medicamento. O grau é um dos três, não o único. Quando a indicação se fecha, aí sim o grau volta a pesar — mas na escolha da técnica, não na decisão de operar.
Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.