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Ginecomastia

Ginecomastia unilateral: só de um lado é normal?

Crescer só de um lado não é exceção rara: num estudo com 237 homens, 43,5% dos casos eram unilaterais. O hormônio circula igual nos dois lados — quem decide é o tecido de cada mama. Veja o que separa assimetria comum do achado que exige exame de imagem.

Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 8 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Ginecomastia

“Cresceu só de um lado” é a frase que muda o tom da busca. Enquanto os dois peitos incomodam junto, o homem tende a atribuir o quadro a peso, idade ou academia; quando é um só, a pergunta vira outra — e a internet responde a ela com duas versões opostas, a de que assimetria é sempre normal e a de que um lado isolado é câncer até prova em contrário. Nenhuma das duas sobrevive aos números.

O que a assimetria revela — e o que só o exame físico confirma

O que o lado único revela: que o tecido de cada mama responde de forma independente ao mesmo hormônio circulante — não que algo deu errado. No estudo de Costanzo et al. (2018), 43,5% dos 237 homens tinham ginecomastia unilateral, e a assimetria costuma ser o quadro mais recente (duração média de 1,4 ano, contra 3,4 nos bilaterais).

O que ele não revela: lado único não é sinal de câncer por conta própria. O câncer de mama masculino é cerca de 1% de todos os casos, e apareceu em apenas 0,11% de 5.113 peças cirúrgicas de ginecomastia revisadas por Lapid et al. (2015).

O que define o caso: a textura e a posição do nódulo, não a lateralidade. Nódulo duro, mal delimitado, fora do centro da aréola, fixo aos planos profundos, com retração de pele ou secreção pelo mamilo — são esses achados que mudam a conduta, presentes em 97% dos casos de câncer de mama masculino descritos por Faridi et al. (2025).

Quem não deve seguir sozinho: quem sente esse tipo de nódulo — duro, fixo, excêntrico, com retração ou secreção sanguinolenta — precisa de exame clínico e, se a lesão for suspeita, biópsia por agulha grossa, conforme a diretriz da Academia Europeia de Andrologia (Kanakis et al., 2019). Assimetria isolada, sem esses sinais, não exige isso.

Quanto do quadro é realmente de um lado só

Costanzo et al. (2018), num estudo multicêntrico publicado no BioMed Research International com 237 homens adultos de 18 a 85 anos (mediana de 32) atendidos por queixa de aumento mamário, mediram a proporção: 103 casos unilaterais (43,5%) contra 134 bilaterais (56,5%). Entre os unilaterais, 54,4% do lado esquerdo e 45,6% do direito — diferença que os próprios autores não consideraram relevante.

Em adolescentes a proporção é parecida. Faridi, Gerber e Hartmann (2025), na revisão do Deutsches Ärzteblatt International (122:406-11), citam uma série de 50 jovens em que 68% tinham ginecomastia bilateral e 32% unilateral.

O contraponto vem de um desenho diferente. Nuttall e Niewoehner (1984, American Journal of Medicine) examinaram sistematicamente 214 homens internados, de 27 a 92 anos, e acharam ginecomastia palpável em 65% deles — quadro bilateral em todos menos 11, ou seja, perto de 8% de apresentação em um lado só entre os que tinham a alteração.

A distância entre 43,5% e 8% não é contradição: é a diferença entre quem procura o médico e quem é achado no exame. O homem que vai ao consultório vai porque notou alguma coisa — e crescimento assimétrico é exatamente o que se nota. Quem foi examinado de rotina no hospital, sem queixa nenhuma, aparece na estatística com o padrão bilateral discreto que ele nunca percebeu.

O hormônio circula igual nos dois lados

O mecanismo que o leitor costuma presumir é geográfico: o hormônio teria “chegado” mais em um peito. Isso não se sustenta — estrogênio e testosterona circulam no sangue e banham os dois lados na mesma concentração.

A ginecomastia se forma quando o equilíbrio entre estrogênio e androgênio se desloca dentro do tecido mamário, não no tubo de sangue. Os androgênios têm efeito antiproliferativo sobre esse tecido; o estrogênio tem o efeito oposto. E boa parte do estrogênio que conta ali é produzida no próprio local, pela aromatase (CYP19), que converte androstenediona e testosterona em estrona e estradiol. Nesse arranjo, o estrogênio age como fator intrácrino e parácrino, com concentração local alta e independente do que o exame de sangue mostra.

É isso que abre espaço para a assimetria: o estímulo é sistêmico, mas a resposta é de cada mama. Atividade da aromatase e sensibilidade do receptor não são obrigatoriamente idênticas nos dois lados do mesmo tórax. Vale registrar o limite dessa explicação — ela justifica que haja diferença entre os lados, não prediz qual lado vai crescer. Nenhuma das séries citadas encontrou preferência clara por esquerdo ou direito.

Um lado só costuma ser o quadro mais recente

Os dados de Costanzo trazem um detalhe que ajuda a ler a assimetria como fase, e não como categoria. Comparados aos unilaterais, os homens com quadro bilateral tinham duração média de doença mais que duas vezes maior — 3,4 ± 5,6 anos contra 1,4 ± 1,9 ano, além de IMC mais alto (27,8 contra 25,7 kg/m²) e testosterona mais baixa (4,6 contra 5,3 ng/mL).

A leitura prática é que parte do que se apresenta como unilateral é ginecomastia em curso, com o segundo lado atrasado — ou com um dos lados regredindo antes do outro. Assimetria, nesse cenário, é o desenho normal do processo, não um segundo diagnóstico.

O que faz um lado só virar sinal de alerta

A ginecomastia comum tem forma reconhecível: tecido firme e elástico, concêntrico ao redor do complexo aréola-mamilo, móvel, sem alteração de pele, com frequência dolorido nos primeiros meses. O câncer de mama masculino tem outra. Faridi et al. (2025) descrevem a apresentação típica como lesão mal delimitada, endurecida e indolor em 97% dos casos, e registram envolvimento do mamilo mais comum que nas mulheres: retração em 9%, ulceração em 6% e secreção patológica em 6%.

Os achados que mudam a conduta, portanto, não são “um lado só”. São: nódulo duro ou fixo aos planos profundos, posição excêntrica — fora do centro da aréola —, contorno irregular, retração ou ulceração de pele, secreção pelo mamilo, sobretudo sanguinolenta, e linfonodo palpável na axila.

O tamanho real do risco

O câncer de mama masculino corresponde a cerca de 1% de todos os casos de câncer de mama, número que o INCA repete para o Brasil — em 2017 o país registrou 203 mortes por câncer de mama em homens contra 16.724 em mulheres. Na Alemanha, em 2020, foram 740 casos masculinos entre 71.290 de câncer de mama, com 166 óbitos; a idade média de diagnóstico no homem é de 71 anos, mais alta que a da mulher.

A escala fica mais concreta na casuística cirúrgica. Lapid et al. (2015) revisaram 5.113 peças de ginecomastia retiradas em cirurgia: 0,11% continham carcinoma invasivo e 0,18%, carcinoma in situ.

Existe associação estatística entre as duas condições — Faridi et al. (2025) relatam OR de 9,78 (IC 95%: 7,52-12,7). O que esse número não diz é que a ginecomastia cause o tumor. As duas coisas compartilham o mesmo terreno de excesso de estrogênio, e há populações em que ambas se concentram: homens com síndrome de Klinefelter têm risco de câncer de mama 58 vezes maior que o do homem comum, com risco absoluto perto de 3% (Niewoehner e Schorer, 2008, BMJ, 336:709-13).

O que muda na investigação

Ter um lado só não obriga a exame de imagem. A diretriz da Academia Europeia de Andrologia (Kanakis et al., 2019, Andrology) posiciona a imagem para quando o exame clínico é equívoco, e recomenda ir direto à biópsia por agulha grossa quando a lesão já é suspeita — a imagem, nesse caso, não é o passo que decide.

Quando entra, o exame segue a idade: o Colégio Americano de Radiologia orienta ultrassom como primeira linha abaixo dos 25 anos e mamografia a partir daí, os dois complementares diante de achado suspeito. A mamografia é cerca de 90% sensível e 90% específica para separar massa maligna de benigna no homem (Niewoehner e Schorer, 2008). E a ginecomastia tem assinatura própria na imagem: padrão nodular, com densidade triangular ou em leque na região subareolar, típico do primeiro ano; padrão dendrítico, densidade retroareolar em chama com projeções lineares, da fase fibrótica; e padrão difuso, que se parece com uma mama feminina.

Na prática, o que a lateralidade única faz é reduzir a margem para tratar o achado como óbvio. Crescimento bilateral simétrico e retroareolar tem diagnóstico esperado; endurecimento de um lado só, fora do centro da aréola, num homem de mais idade, é o cenário em que o exame físico pesa mais antes de dispensar a imagem.

Resumindo

Ginecomastia de um lado só é comum: 43,5% dos 237 homens de Costanzo et al. e 32% da série de adolescentes citada por Faridi et al. A assimetria tem explicação biológica direta — o hormônio circula igual nos dois lados, mas quem responde é o tecido de cada mama, com sua própria atividade de aromatase, e o quadro unilateral tende a ser o mais recente (1,4 ano contra 3,4 anos de duração média nos bilaterais). O erro de expectativa mais comum é achar que o lado único é o sinal de alarme. Não é: o alarme está na textura e na posição do que se apalpa — nódulo duro, mal delimitado, fora do centro da aréola, com retração de pele ou secreção pelo mamilo. Isso descreve os 97% de lesões endurecidas e indolores do câncer de mama masculino, que segue sendo cerca de 1% de todos os cânceres de mama e apareceu em 0,11% de 5.113 peças cirúrgicas de ginecomastia. Raro o bastante para não virar pânico, real o bastante para não ser dispensado por telefone.

Perguntas frequentes

Ginecomastia só de um lado é normal?

É frequente. No estudo de Costanzo et al. (2018), com 237 homens de 18 a 85 anos, 43,5% dos casos eram unilaterais e 56,5% bilaterais. Entre adolescentes, uma série de 50 jovens citada por Faridi et al. (2025) encontrou 32% de apresentação em um lado só. Assimetria por si não é sinal de doença — o que importa é como o tecido daquele lado se comporta ao exame.

Por que a ginecomastia apareceu em um peito só se o hormônio é o mesmo nos dois?

Porque o estímulo é sistêmico, mas a resposta é local. Quem decide o crescimento é a razão entre estrogênio e androgênio dentro do próprio tecido mamário, e boa parte desse estrogênio é produzida ali mesmo pela aromatase (CYP19) do tecido, agindo de forma parácrina. Duas mamas do mesmo homem não têm obrigatoriamente a mesma atividade dessa enzima nem a mesma sensibilidade do receptor.

Ginecomastia de um lado só pode ser câncer de mama?

Pode, e é raro. O câncer de mama masculino é cerca de 1% de todos os casos de câncer de mama, segundo o INCA. Numa revisão de 5.113 peças de ginecomastia retiradas em cirurgia (Lapid et al., 2015), 0,11% traziam carcinoma invasivo e 0,18% carcinoma in situ. O que muda a conduta não é o lado único, e sim o tipo de achado: nódulo duro, mal delimitado, fora do centro da aréola, fixo, com retração de pele ou secreção pelo mamilo.

Preciso fazer exame de imagem se cresceu só de um lado?

Nem sempre. A diretriz da Academia Europeia de Andrologia (Kanakis et al., 2019) reserva a imagem para quando o exame clínico é equívoco, e manda ir direto à biópsia por agulha grossa quando a lesão é suspeita. Quando a imagem entra, o Colégio Americano de Radiologia orienta ultrassom como primeiro exame abaixo dos 25 anos e mamografia a partir dessa idade.

Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.