Mounjaro e apneia do sono: existe relação?
Quem usa Mounjaro para emagrecer ou diabetes ouve falar que ele também "trata" apneia. O estudo SURMOUNT-OSA (Malhotra et al., 2024, NEJM) testou isso de verdade — mas o efeito é sobre o peso, não sobre a via aérea diretamente, e a aprovação no Brasil é mais estreita do que a conversa sugere.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 5 min de leitura · Como avaliamos a evidência

“Mounjaro e apneia do sono” é busca de quem já toma o remédio para diabetes ou obesidade e ouviu dizer que ele também mexe com o ronco e as pausas respiratórias — ou de quem tem apneia e está considerando o remédio por causa disso. A pergunta tem resposta testada em estudo grande, mas a resposta não é “sim, trata apneia” solto assim.
O que o Mounjaro resolve na apneia — e o que só o exame de sono confirma
O que faz: em adulto com apneia obstrutiva moderada a grave e obesidade, reduziu o índice de apneia-hipopneia em média 55% (sem CPAP) e 62,8% (com CPAP) no SURMOUNT-OSA, por via da perda de peso.
O que não faz: não age direto sobre a via aérea — o mecanismo é a redução de gordura ao redor do pescoço e da língua, não uma ação farmacológica sobre o músculo da garganta —, e nenhum dos dois grupos do estudo chegou a zero eventos por hora.
O que define o caso: a aprovação da Anvisa cobre só apneia moderada a grave associada a obesidade, com diagnóstico confirmado por exame de sono — não cobre apneia leve nem apneia sem obesidade como comorbidade.
Quem não deve seguir sozinho: quem já usa CPAP não deve suspender o aparelho por conta própria achando que o remédio substitui — no estudo, a combinação foi tirzepatida somada ao CPAP já em uso, não a troca de um pelo outro, e suspender depende de novo exame de sono mostrando índice controlado.
O estudo que testou isso direto
O SURMOUNT-OSA (Malhotra et al., 2024, publicado no New England Journal of Medicine) foi desenhado especificamente para essa pergunta — não é extrapolação de um estudo de emagrecimento. Foram dois ensaios clínicos de fase 3, randomizados, controlados por placebo, de 52 semanas, testando tirzepatida (o princípio ativo do Mounjaro) na dose máxima tolerada de 10 mg ou 15 mg por semana, em adultos com apneia obstrutiva moderada a grave e obesidade.
Os dois ensaios diferem no ponto de partida. No primeiro, os participantes não usavam CPAP. No segundo, já usavam CPAP havia pelo menos três meses e mantiveram o aparelho durante o estudo — ali a pergunta não era “o remédio substitui o CPAP”, era “o remédio soma alguma coisa a quem já trata com CPAP”.
Os números
No grupo sem CPAP, o índice de apneia-hipopneia (IAH) caiu, em média, 25,3 eventos por hora com tirzepatida contra 5,3 com placebo — diferença de 20 eventos por hora (p < 0,001). Em termos percentuais, uma queda média de 55% em relação ao valor de partida, contra 5% no placebo.
No grupo que já usava CPAP, a queda foi de 29,3 eventos por hora com tirzepatida contra 5,5 com placebo — diferença de 23,8 eventos por hora (p < 0,001), ou 62,8% de redução média contra 6,4% no placebo.
A perda de peso acompanhou a magnitude do efeito: em média 18% do peso corporal (cerca de 20,4 kg) no primeiro grupo e 20% (cerca de 22,7 kg) no segundo, que somou tirzepatida ao CPAP já em uso. O estudo também registrou queda na proteína C-reativa e na pressão arterial sistólica — sinais de que o efeito não fica restrito ao sono.
Nenhum dos dois grupos zerou o IAH. A redução foi grande o suficiente para mudar a classificação de gravidade de boa parte dos participantes, mas a média final de eventos por hora continuou acima de zero — é melhora de magnitude, não desaparecimento da apneia.
O mecanismo é indireto — o remédio não age na via aérea
O ponto que a busca “Mounjaro e apneia do sono” costuma presumir é que existe uma ação direta do remédio sobre a respiração durante o sono. Não é o que o estudo sustenta. A tirzepatida é um agonista duplo de receptores GLP-1 e GIP — sua ação é sobre apetite e metabolismo, não sobre o tônus muscular da garganta ou o comando neural da respiração.
O caminho proposto é outro: parte da gordura corporal se acumula ao redor do pescoço, da língua e da faringe, reduzindo o espaço da via aérea superior e favorecendo o colapso que caracteriza a apneia obstrutiva. Reduzir essa gordura tende a devolver espaço à via aérea. É por isso que o efeito acompanhou de perto a magnitude da perda de peso em ambos os braços do estudo — o remédio trata a obesidade, e a melhora da apneia é consequência, não alvo direto da molécula.
Aprovação regulatória: mais estreita do que parece
Nos Estados Unidos, o FDA aprovou em dezembro de 2024 o uso da mesma molécula — sob a marca Zepbound, destinada à indicação de obesidade — especificamente para apneia obstrutiva moderada a grave associada a obesidade, a primeira aprovação desse tipo para qualquer medicamento.
No Brasil não existe a marca Zepbound: a Anvisa ampliou a bula do Mounjaro para incluir a mesma indicação em 20 de outubro de 2025, tornando-o a primeira opção farmacológica aprovada no país para apneia obstrutiva do sono. A aprovação, porém, cobre um recorte específico — adulto com apneia moderada a grave e obesidade, com diagnóstico confirmado por exame de sono. Não cobre apneia leve, não cobre quem não tem obesidade como comorbidade, e não dispensa a avaliação médica que confirma o diagnóstico antes de qualquer prescrição.
Resumindo
O SURMOUNT-OSA testou a pergunta de forma direta: em 52 semanas, tirzepatida reduziu o índice de apneia-hipopneia em 55% (sem CPAP) e 62,8% (com CPAP), contra 5% e 6,4% no placebo — acompanhando uma perda de peso de 18% a 20%. O mecanismo é a redução de gordura na via aérea superior, não uma ação direta do remédio sobre a respiração, e nenhum dos dois grupos chegou a zero eventos por hora. A Anvisa aprovou essa indicação para o Mounjaro em outubro de 2025, mas só para apneia moderada a grave associada a obesidade, com diagnóstico por exame e prescrição médica — não é remédio de venda livre para quem ronca, nem substituto do CPAP sem reavaliação.
Perguntas frequentes
Mounjaro trata apneia do sono?
Para um grupo específico, sim, com aprovação regulatória: adulto com apneia obstrutiva moderada a grave e obesidade. A Anvisa ampliou a bula do Mounjaro para essa indicação em 20/10/2025, com base no estudo SURMOUNT-OSA. Fora desse recorte — apneia leve, ou apneia sem obesidade associada — não há indicação aprovada, e a decisão de prescrever é sempre médica, depois de exame de sono confirmando o diagnóstico.
Quanto o Mounjaro reduz a apneia do sono?
No SURMOUNT-OSA (Malhotra et al., 2024, New England Journal of Medicine), o índice de apneia-hipopneia caiu, em média, 55% em quem não usava CPAP e 62,8% em quem já usava — contra 5% e 6,4% no grupo placebo, em 52 semanas. São médias de grupo: a resposta individual varia, e uma fração dos participantes não teve redução relevante.
Mounjaro substitui o CPAP?
Não é essa a evidência disponível. Um dos dois braços do SURMOUNT-OSA testou exatamente essa combinação — tirzepatida somada ao CPAP já em uso — e não a troca de um pelo outro. Suspender o CPAP é decisão que depende de novo exame de sono mostrando índice controlado, não da percepção de melhora ou da perda de peso isolada.
Por que emagrecer melhora a apneia?
Parte da gordura corporal se deposita ao redor do pescoço e da língua, estreitando a via aérea superior durante o sono — é um dos mecanismos que favorecem o colapso na apneia obstrutiva. Reduzir essa gordura tende a abrir mais espaço na via aérea. O tirzepatida não age direto sobre o músculo da garganta: o efeito documentado no estudo passa pela perda de peso, não por uma ação farmacológica específica contra apneia.
Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.