Por que só o homem tem próstata
A pergunta parece anatomia básica, mas a resposta é hormonal: o tecido que origina a próstata existe nos dois sexos e só se diferencia sob ação da di-hidrotestosterona fetal. Veja o que a embriologia mostra — e por que a chamada "próstata feminina" ainda divide especialistas.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

“Próstata do homem” é como a busca chega — e por trás da pergunta “por que só homem tem isso” existe uma resposta que raramente aparece nos primeiros resultados: a próstata não nasce como órgão exclusivamente masculino por definição. Ela nasce de um tecido presente nos embriões dos dois sexos, e vira próstata ou não conforme a dose de um hormônio que só um dos dois produz em quantidade relevante nessa fase da gestação.
O que a testosterona fetal explica — e o que só a diferenciação embrionária confirma
O que faz: a conversão de testosterona em di-hidrotestosterona (DHT) pelas células de Leydig fetais, por volta da 9ª e da 10ª semana de gestação, é o sinal que faz o seio urogenital — tecido presente nos dois sexos — se diferenciar em próstata (Cunha et al., 2020).
O que não faz: a ausência de DHT no embrião feminino não significa que o tecido seja incapaz de formar próstata — um experimento com xenoenxerto mostrou que tecido de uretra fetal feminina exposto a DHT também forma estrutura com características prostáticas; falta o estímulo, não a capacidade biológica.
O que define o caso: os marcadores usados para reconhecer tecido prostático — PSA e fosfatase ácida prostática — apareceram na glândula parauretral (de Skene) em 83% e 67% dos casos estudados (Tepper et al., 1984), o que sustentou o registro oficial de “próstata feminina” em 2002.
Quem não deve seguir sozinho: quem lê “próstata feminina” e presume uma estrutura equivalente à masculina em toda mulher extrapola sozinho além do que a literatura sustenta — o tamanho da glândula parauretral varia muito, de rudimentar a bem desenvolvida, e a homologia completa segue em debate (Tomalty et al., 2022), não é consenso fechado.
O ponto de partida é o mesmo tecido nos dois sexos
Nas primeiras semanas de gestação, antes de qualquer diferença visível entre embrião masculino e feminino, existe uma estrutura única chamada seio urogenital — uma bolsa de origem endodérmica formada a partir da cloaca, a mesma cavidade primitiva que também origina o reto. O seio urogenital é bipotencial: o mesmo tecido pode se diferenciar em próstata e uretra masculina, ou em porção inferior da vagina e uretra feminina, dependendo do sinal hormonal que receber nas semanas seguintes. Até esse ponto do desenvolvimento, não há próstata nem ausência dela — há um tecido à espera de instrução.
A instrução vem da testosterona convertida em di-hidrotestosterona
A diferença entre os dois destinos é hormonal, não uma diferença de origem anatômica. Por volta da 9ª e da 10ª semana de gestação, as células de Leydig do testículo fetal já em formação começam a secretar testosterona, que no tecido-alvo é convertida em di-hidrotestosterona (DHT) pela enzima 5-alfa-redutase tipo 2. É a DHT — não a testosterona diretamente — que se liga ao receptor de andrógeno no mesênquima que envolve o seio urogenital, e esse mesênquima ativado dispara um sinal parácrino que instrui o epitélio a formar os brotos prostáticos (Cunha, Cao, Franco & Baskin, 2020, Differentiation, 115:37-52). O processo segue duas fases: primeiro o mesênquima responde ao andrógeno e sinaliza para o epitélio, depois o próprio epitélio prostático em formação passa a responder diretamente aos andrógenos.
Sem receptor de andrógeno funcional, ou sem a conversão de testosterona em DHT, o broto prostático simplesmente não se forma — é o que a literatura descreve em condições como a síndrome de insensibilidade a andrógenos e a deficiência de 5-alfa-redutase, em que um feto geneticamente masculino, com testículos funcionantes, não desenvolve próstata porque o sinal hormonal não chega ao tecido-alvo ou não é reconhecido por ele.
Sem o sinal androgênico, o mesmo tecido segue outro caminho
No embrião feminino, sem a onda de DHT, o seio urogenital não fica parado — ele segue um programa de desenvolvimento próprio. Um estudo em modelo animal identificou que a sinalização por ácido retinoico no mesênquima do seio urogenital é regulada de forma diferente entre os sexos, e que essa via participa da decisão de formar ou não o broto prostático, além da simples ausência de andrógeno (Bryant et al., 2014, Developmental Biology). Na ausência do estímulo androgênico, o seio urogenital contribui para a formação da porção inferior da vagina, não da próstata.
A evidência mais direta de que o tecido feminino carrega o mesmo potencial veio de um experimento com xenoenxertos: pesquisadores transplantaram tecido de uretra proximal fetal feminina humana para camundongos e o expuseram à DHT — o tecido respondeu formando estrutura com características prostáticas, embora com diferenças em relação à próstata masculina nativa (Cunha, Cao, Franco & Baskin, 2020). O tecido feminino não é incapaz de formar próstata — ele só não recebe, no desenvolvimento normal, o sinal hormonal que dispara o processo.
A “próstata feminina” existe, mas o nome ainda divide especialistas
A mulher tem uma estrutura considerada homóloga à próstata: as glândulas parauretrais, também chamadas de glândulas de Skene, localizadas ao redor da porção distal da uretra feminina. Um estudo imuno-histoquímico com material de 19 mulheres, de recém-nascidas a 86 anos, identificou glândulas parauretrais em 18 dos casos e encontrou nelas positividade para antígeno prostático específico (PSA) em 83% e para fosfatase ácida prostática em 67% — os mesmos marcadores usados para reconhecer tecido prostático masculino (Tepper, Jagirdar, Heath & Geller, 1984, Archives of Pathology & Laboratory Medicine, 108(5):423-425). Com base nesse tipo de achado, a Terminologia Histologica — o vocabulário oficial da anatomia humana, mantido pelo comitê internacional da área — passou a registrar, desde 2002, “próstata feminina” como sinônimo aceito de glândula parauretral.
Isso não fechou a questão. Uma revisão publicada quase quatro décadas depois do estudo imuno-histoquímico original reexamina a morfologia, a nomenclatura e a função dessas glândulas e mostra que a homologia segue sendo tema de debate ativo — há literatura embriológica mais antiga argumentando que a glândula parauretral corresponde só à porção mais cranial da próstata masculina, não ao órgão inteiro (Tomalty et al., 2022, Sexual Medicine Reviews, 10:183-194). O tamanho da glândula também varia muito entre mulheres, de rudimentar a bem desenvolvida, o que torna difícil afirmar que toda mulher tem uma “próstata” no mesmo sentido anatômico em que todo homem tem.
Resumindo
A próstata não é um órgão que “só o homem tem” por definição anatômica fixa — é o destino de um tecido presente nos dois sexos, o seio urogenital derivado da cloaca, que se diferencia em próstata quando recebe di-hidrotestosterona das células de Leydig fetais por volta da 9ª e da 10ª semana de gestação, via receptor de andrógeno no mesênquima (Cunha et al., 2020). Sem esse sinal, o mesmo tecido segue outro caminho, e evidência de xenoenxerto mostra que o potencial de formar tecido prostático continua presente no tecido feminino, só não é ativado no desenvolvimento normal. A estrutura mais próxima que a mulher carrega — a glândula parauretral, ou de Skene, positiva para PSA em 83% dos casos estudados (Tepper et al., 1984) — ganhou o nome oficial de “próstata feminina” em 2002, mas o quanto essa homologia é completa, e não parcial, segue sendo pergunta aberta na literatura mais recente (Tomalty et al., 2022).
Perguntas frequentes
Por que só o homem tem próstata?
Porque a próstata é o destino de um tecido — o seio urogenital — que existe nos embriões dos dois sexos. No embrião masculino, as células de Leydig do testículo fetal secretam testosterona, convertida em di-hidrotestosterona (DHT) pela enzima 5-alfa-redutase, e é a DHT que ativa o receptor de andrógeno no mesênquima e dispara a formação dos brotos prostáticos (Cunha, Cao, Franco & Baskin, 2020, Differentiation). Sem essa onda hormonal, o mesmo tecido segue outro programa de desenvolvimento.
A mulher tem algum órgão parecido com a próstata?
Tem uma estrutura considerada homóloga: as glândulas parauretrais, também chamadas de glândulas de Skene, ao redor da porção distal da uretra feminina. Um estudo imuno-histoquímico com material de 19 mulheres encontrou positividade para antígeno prostático específico (PSA) em 83% dos casos com glândula identificável, e para fosfatase ácida prostática em 67% (Tepper, Jagirdar, Heath & Geller, 1984, Archives of Pathology & Laboratory Medicine) — os mesmos marcadores usados para reconhecer tecido prostático masculino.
Em que semana da gestação a próstata do bebê começa a se formar?
Por volta da 9ª e da 10ª semana, quando as células de Leydig do testículo fetal já produzem testosterona suficiente para ser convertida em di-hidrotestosterona no tecido-alvo. É essa conversão local, não a testosterona circulante isolada, que ativa o mesênquima do seio urogenital e inicia os brotos que vão virar a glândula.
"Próstata feminina" é um termo científico aceito ou só um apelido popular?
É um termo oficial, mas contestado. A Terminologia Histologica — o vocabulário internacional da anatomia humana — passou a registrar "próstata feminina" como sinônimo de glândula parauretral em 2002. Uma revisão mais recente (Tomalty et al., 2022, Sexual Medicine Reviews) mostra que a homologia completa com a próstata masculina segue em debate: há literatura embriológica argumentando que a glândula parauretral corresponde só a parte da próstata masculina, e o tamanho da estrutura varia muito entre mulheres.
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