Testosterona biodisponível: o terceiro número do exame
Testosterona biodisponível não é sinônimo de testosterona livre — é a soma dela com a fração fracamente ligada à albumina. Veja o que separa os três números do exame, como o laboratório mede esse terceiro e em que situação ele muda o diagnóstico.
Por Fabiano Carvalho · Atualizado em 05 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Foto: Pavel Danilyuk / Pexels
“Testosterona biodisponível” aparece como terceiro item em exames mais completos, ao lado de total e livre, sem explicação de por que existem três números para a mesma coisa. Não são a mesma coisa. Cada um mede uma fração diferente do hormônio circulando no sangue, e a diferença entre eles nasce de como a testosterona se liga — ou não se liga — a duas proteínas do plasma.
O que a testosterona biodisponível revela — e o que só a fórmula de Vermeulen calcula
O que faz: soma a fração livre com a fração ligada à albumina — a parte do hormônio que, pela dissociação rápida dessa ligação (cerca de 1 segundo), chega a ser usada pelo tecido durante a passagem pelo capilar.
O que não faz: não é sinônimo de testosterona livre nem substitui a total — é um terceiro número, obtido por precipitação com sulfato de amônio ou calculado pela fórmula de Vermeulen, e nenhum laboratório mede as três frações do mesmo jeito.
O que define o caso: testosterona total perto do limite inferior da normalidade, ou uma condição já conhecida por alterar a SHBG — obesidade, doença hepática, disfunção de tireoide, HIV/HCV, envelhecimento.
Quem não deve seguir sozinho: homem mais velho com testosterona total dentro da faixa mas queixa clínica compatível — no Baltimore Longitudinal Study, a total caiu 1,6% ao ano enquanto a livre e a biodisponível caíram de 2% a 3% ao ano, porque a SHBG sobe com a idade e pode esconder uma queda real na fração disponível.
Três frações, um hormônio só
A testosterona total é a soma de tudo que circula no sangue, ligado ou não. Dessa soma, a maior parte fica presa à SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais) por uma ligação forte, quase irreversível na escala de tempo de uma passagem pelo capilar. O restante se divide entre a fração ligada à albumina — ligação fraca, que se desfaz com facilidade — e uma fração livre, não ligada a proteína nenhuma, que corresponde a cerca de 1% a 2% do total (Goldman et al., 2017, Endocrine Reviews).
A testosterona livre é só essa última fatia — a menor das três. A testosterona biodisponível soma a livre com a fração albumina-ligada, porque as duas chegam ao tecido durante a circulação. A distinção entre as três não é burocracia de laboratório: é o que decide se um resultado “normal” no total ainda descreve o que realmente chega à célula.
Por que a ligação fraca com a albumina conta como disponível
A hipótese do hormônio livre — só a fração não ligada atravessa a membrana da célula e produz efeito biológico — é a base de toda essa separação (Goldman et al., 2017). Mas ela deixou de fora, por décadas, a fração albumina-ligada, tratada como indisponível só por estar tecnicamente ligada a uma proteína.
O que mudou essa leitura foi medir a velocidade da ligação. A albumina se liga à testosterona com uma constante de associação de 2,0 a 4,1 × 10⁴ L/mol a 37°C — ordens de grandeza mais fraca que a da SHBG, e a meia-vida de dissociação desse complexo é de aproximadamente 1 segundo (Goldman et al., 2017). Isso é rápido o bastante para que, durante uma única passagem pelo capilar de tecidos como fígado e alguns órgãos periféricos, parte da testosterona ligada à albumina se solte e fique disponível para entrar na célula — funcionalmente parecida com a fração livre, mesmo sem ser idêntica a ela. A ligação com a SHBG não tem essa saída: a afinidade é alta demais e a dissociação, lenta demais, para liberar hormônio na mesma janela de tempo.
Como o laboratório mede esse terceiro número
A testosterona total sai por imunoensaio direto ou por espectrometria de massa. Já livre e biodisponível pedem outro caminho, porque são frações minoritárias demais para medir sem separar antes.
O método clássico da fração biodisponível é a precipitação por sulfato de amônio, descrito por Tremblay e Dube em 1974: uma solução saturada de sulfato de amônio a 50% precipita seletivamente a testosterona ligada à SHBG, e o que sobra no sobrenadante — livre mais albumina-ligada — é medido diretamente. É um método de bancada, pouco disponível fora de laboratórios especializados, mas segue sendo a referência com a qual métodos mais novos são comparados.
A alternativa mais usada na prática clínica atual é o cálculo. A fórmula de Vermeulen (Vermeulen, Verdonck e Kaufman, 1999, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 84(10):3666-3672) estima tanto a fração livre quanto a biodisponível a partir de três valores já medidos — testosterona total, SHBG e albumina —, aplicando as constantes de associação de cada ligação (SHBG: 5,97 × 10⁸ L/mol; albumina: 3,6 × 10⁴ L/mol, uma diferença de afinidade de cerca de 16.600 vezes) e resolvendo por aproximação sucessiva. A diretriz da Endocrine Society (Bhasin et al., 2018) aceita esse cálculo como equivalente à diálise de equilíbrio — o método direto considerado padrão-ouro para a fração livre — e é explícita ao descartar a alternativa mais comum em laboratório de rotina: o imunoensaio direto por análogo marcado não deve ser usado, porque é impreciso nessa faixa de concentração.
Quando o terceiro número muda o quadro clínico
A mesma diretriz recomenda medir a fração livre ou biodisponível em duas situações: quando a testosterona total fica perto do limite inferior da normalidade, ou quando existe uma condição conhecida por alterar a SHBG — obesidade, doença hepática, disfunção de tireoide, infecção por HIV ou hepatite C, entre outras (Bhasin et al., 2018; Goldman et al., 2017).
O envelhecimento é a mais comum dessas condições, e a mais fácil de não considerar. No Baltimore Longitudinal Study of Aging (Harman et al., 2001, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 86(2):724-731), 890 homens acompanhados ao longo dos anos mostraram testosterona total caindo cerca de 1,6% ao ano — um declínio discreto. A fração livre e a biodisponível caíram de 2% a 3% ao ano, quase o dobro, porque a SHBG sobe com a idade e prende uma fatia maior do hormônio total à medida que os anos passam. Um homem de 65 anos pode ter testosterona total dentro da faixa de referência e, ainda assim, ter a fração disponível abaixo do que seria esperado — é exatamente o cenário em que pedir só o primeiro número deixa a leitura incompleta.
Resumindo
Total, livre e biodisponível não são três medidas do mesmo valor, são três fatias diferentes do hormônio que circula no sangue — a que fica presa à SHBG, a que se solta rápido da albumina, e a que já circula solta. O terceiro número existe porque a ligação fraca com a albumina se desfaz rápido o bastante (cerca de 1 segundo) para contar como disponível ao tecido, e porque a SHBG pode subir — como sobe com a idade, segundo os 890 homens do Baltimore Longitudinal Study — sem que a testosterona total avise que a fração realmente disponível já caiu. Pedir esse terceiro número faz sentido quando o total está no limite inferior ou quando alguma condição conhecida mexe na SHBG; fora disso, ele raramente muda a conduta.
Perguntas frequentes
O que é testosterona biodisponível?
É a soma de duas frações do hormônio no sangue: a testosterona livre (não ligada a nenhuma proteína, cerca de 1% a 2% do total) e a testosterona ligada à albumina, uma ligação fraca que se desfaz em cerca de 1 segundo (Goldman et al., 2017, Endocrine Reviews). Fica de fora a fração ligada à SHBG, que se dissocia devagar demais para chegar ao tecido durante a passagem pelo capilar.
Qual a diferença entre testosterona livre e testosterona biodisponível?
Testosterona livre é só a fração não ligada a proteína nenhuma — a menor das três, medida por diálise de equilíbrio. Testosterona biodisponível é maior, porque soma essa fração livre com a albumina-ligada. Os dois números tendem a subir e descer juntos, mas não são o mesmo valor nem substituem um ao outro no laudo.
Como a testosterona biodisponível é medida no laboratório?
O método clássico é a precipitação por sulfato de amônio (Tremblay e Dube, 1974): uma solução saturada de sulfato de amônio precipita a fração ligada à SHBG, e a testosterona que sobra no sobrenadante — livre mais albumina-ligada — é medida diretamente. A alternativa mais usada hoje é o cálculo pela fórmula de Vermeulen (Vermeulen, Verdonck e Kaufman, 1999, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism), que estima o valor a partir da testosterona total, da SHBG e da albumina.
Quando vale a pena pedir a testosterona biodisponível no exame?
A diretriz da Endocrine Society (Bhasin et al., 2018) recomenda medir a fração livre ou biodisponível quando a testosterona total está perto do limite inferior da normalidade, ou quando existe alguma condição que altera a SHBG — obesidade, doença hepática, disfunção de tireoide, HIV/HCV e o próprio envelhecimento. Em homens mais velhos, a SHBG tende a subir com a idade, então a testosterona total pode estar normal enquanto a fração disponível já caiu.
Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.