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Baixa libido masculina

Tribulus terrestris: o que é e como agir na libido

O tribulus terrestris é vendido como elevador de testosterona, mas é justamente isso que os ensaios controlados não encontram. Veja o que a pesquisa mediu de fato, a dose usada e onde o efeito realmente aparece.

Por Equipe Dossiê Homem · Atualizado em 03 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · Como avaliamos a evidência

Baixa libido masculina
Tribulus terrestrisSuplemento · veredito

Evidência fraca para libido — e não eleva testosterona em quem parte de nível normal.

Medido
função sexual relatada (IIEF): +2,70 pontos vs. placebo
Não faz
não eleva testosterona em quem parte de nível normal
Dose
1.500 mg/dia em 3 tomadas · 12 semanas
Base
Kamenov 2017 (n=180) · Vilar Neto 2025 (10 estudos, 483 homens)

“Tribulus terrestris aumenta a testosterona” é a frase que aparece no rótulo, no vídeo de academia e na recomendação de balcão — e é justamente a parte que a pesquisa em humanos não sustenta. Existe estudo de verdade sobre tribulus, e ele aponta para outro lugar. Entender essa diferença é o que separa quem toma com expectativa correta de quem conclui que “não funcionou”.

O que é o tribulus terrestris

É uma planta rasteira de clima seco, conhecida no Brasil como abrolho, usada há muito tempo na medicina tradicional chinesa e na indiana. O que se atribui à ação da planta são as saponinas furostanólicas, e a protodioscina é a mais citada delas.

Isso importa na hora de comparar produtos: os extratos sérios são padronizados pelo teor dessas saponinas, e dois frascos com a mesma miligramagem no rótulo podem não ser a mesma coisa. Boa parte da divergência entre os estudos vem daí — extratos diferentes, com concentrações diferentes, tratados como se fossem o mesmo ingrediente.

A promessa de testosterona não se sustenta

Dois ensaios controlados testaram exatamente o mecanismo que o mercado anuncia, e nenhum dos dois o encontrou.

Neychev e Mitev (2005), no Journal of Ethnopharmacology: 21 homens saudáveis de 20 a 36 anos, divididos em três grupos — 10 mg/kg/dia, 20 mg/kg/dia e placebo —, por 4 semanas, com dosagens seriadas de testosterona, androstenediona e LH. Em nenhuma das doses a testosterona subiu. O título do próprio artigo é o veredito: a erva afrodisíaca tribulus terrestris não influencia a produção de andrógenos em homens jovens.

Rogerson et al. (2007), no Journal of Strength and Conditioning Research: 22 jogadores de rugby australianos de elite, 450 mg/dia de extrato ou placebo, duplo-cego, por 5 semanas de treino de força de pré-temporada. Força e massa magra subiram nos dois grupos — o treino funcionou —, mas sem nenhuma diferença entre quem tomou tribulus e quem tomou placebo, e sem diferença na razão testosterona/epitestosterona urinária.

São populações e desfechos diferentes chegando ao mesmo lugar. O mecanismo mais vendido do tribulus é o único que a evidência humana descarta com alguma clareza.

Onde o efeito aparece — e não é no hormônio

O estudo mais robusto do ingrediente mediu outra coisa. Kamenov et al. (2017), na Maturitas: 180 homens de 18 a 65 anos com disfunção erétil leve ou moderada, com ou sem desejo sexual reduzido, randomizados entre extrato padronizado de tribulus (1.500 mg/dia, divididos em três tomadas) e placebo, por 12 semanas. O desfecho foi o IIEF, questionário padronizado de função sexual.

O grupo do tribulus melhorou mais que o placebo no escore total — diferença média de 2,70 pontos (IC 95% 1,40 a 4,01; p<0,0001) —, com os domínios de desejo sexual, satisfação com a relação, função orgástica e satisfação geral acompanhando. O estudo não reportou alteração hormonal como resultado, o que delimita a leitura: o achado é sobre função sexual relatada em questionário, não sobre eixo hormonal.

O que sobra quando se somam todos os estudos

A revisão sistemática de Vilar Neto et al. (2025), publicada na Nutrients, reuniu 10 trabalhos com 483 homens de 16 a 70 anos e separou as duas perguntas. Para função erétil, há efeito descrito, mas com nível de evidência baixo — amostras pequenas, extratos diferentes entre estudos, qualidade metodológica desigual. Para testosterona, oito dos dez trabalhos não registraram mudança no perfil androgênico. Nos dois que registraram, a alta foi de magnitude modesta — 60 a 70 ng/dL — e restrita a participantes que já entravam no estudo com hipogonadismo. É a distinção que o rótulo apaga: quando o hormônio sobe, ele sobe em quem já estava abaixo do normal, não em quem parte de um patamar saudável.

Vale nomear o que isso não quer dizer. “Nível de evidência baixo” não é sinônimo de “não funciona”: é o reconhecimento honesto de que os estudos disponíveis não bastam para afirmar o tamanho do efeito com segurança. Quanto ao mecanismo, as hipóteses que circulam — ação sobre óxido nítrico e relaxamento da musculatura lisa — vêm de estudo em animal e em laboratório, e não foram confirmadas em humanos.

Desejo e ereção continuam sendo coisas diferentes

O estudo de Kamenov incluiu homens com disfunção erétil leve ou moderada, e isso costuma ser lido como se o tribulus resolvesse ereção. Ereção depende de fluxo sanguíneo, nervos e vasos — e as causas mais comuns de falha persistente são diabetes, hipertensão, colesterol alto, tabagismo e efeito colateral de medicamento. Nenhuma delas é corrigida por suplemento.

Dificuldade de ereção que se repete, ou que apareceu de forma súbita, é sinal para avaliação médica antes de qualquer coisa — frequentemente é o primeiro aviso de um problema vascular. Desejo baixo com ereção preservada é outro cenário, e é onde a conversa sobre tribulus faz algum sentido.

Dose e tempo usados nos estudos

O protocolo com melhor resultado sobre função sexual foi 1.500 mg/dia de extrato padronizado, em três tomadas, por 12 semanas. Os estudos que investigaram força e hormônio usaram menos — 450 mg/dia por 5 semanas, ou doses calculadas por peso corporal por 4 semanas.

Em nenhum deles o efeito foi de dose única ou de poucos dias. Se existe, ele aparece em semanas de uso contínuo, com um extrato padronizado por teor de saponinas — não com qualquer cápsula que traga a palavra tribulus no rótulo.

Segurança

Nos ensaios clínicos, a frequência de efeitos adversos não diferiu da do placebo, incluindo no estudo de 12 semanas com 180 homens. Existe, porém, um relato de caso publicado por Talasaz et al. (2010), no Nephrology Dialysis Transplantation: um homem jovem e saudável que desenvolveu lesão renal e hepática grave, com convulsão, após consumir por poucos dias um preparado caseiro da planta. Os exames normalizaram após a suspensão.

É evento isolado, com uma preparação que não corresponde à cápsula padronizada dos estudos. Ainda assim, serve de contraponto à ideia de que planta usada há séculos dispensa cuidado — quem tem doença renal ou hepática, ou usa medicamento contínuo, deve tratar isso como conversa de consultório.

Resumindo

O tribulus terrestris é vendido pelo efeito que os estudos não encontram e comprado sem o efeito que eles descrevem: dois ensaios controlados mostram testosterona inalterada, enquanto o maior estudo do ingrediente — 180 homens, 1.500 mg/dia, 12 semanas — mostra melhora em desejo e satisfação sexual relatados, num conjunto de evidência que a própria revisão sistemática classifica como de nível baixo. Quem procura tribulus esperando repor hormônio está atrás de algo que a pesquisa já respondeu que não acontece; quem tem dificuldade de ereção persistente está diante de um problema que pede médico, não cápsula.

Perguntas frequentes

Tribulus terrestris aumenta a testosterona?

Não é o que os ensaios controlados mostram. Neychev e Mitev (2005) testaram duas doses em 21 homens jovens por 4 semanas e não houve aumento de testosterona; Rogerson et al. (2007) chegaram ao mesmo resultado em 22 atletas por 5 semanas. A revisão de Vilar Neto et al. (2025) conclui que não há evidência robusta de aumento hormonal.

Tribulus terrestris funciona para libido?

O estudo mais forte é o de Kamenov et al. (2017), com 180 homens por 12 semanas: o grupo que tomou tribulus melhorou mais que o placebo no questionário de função sexual, inclusive no domínio de desejo. É um resultado real, mas a revisão sistemática que reuniu todos os trabalhos classifica esse conjunto como evidência de nível baixo.

Qual a dose de tribulus terrestris usada nos estudos?

Varia muito conforme o desfecho. No estudo de função sexual de Kamenov et al. foram 1.500 mg por dia de extrato padronizado, divididos em três tomadas, por 12 semanas. Nos estudos de força e hormônio, doses menores (450 mg/dia) ou calculadas por peso corporal. Comparar frascos só pela miligramagem induz a erro: o que muda o efeito é o teor de saponinas.

Tribulus terrestris faz mal?

Nos ensaios clínicos os efeitos adversos não diferiram do placebo. Existe, porém, relato de caso publicado (Talasaz et al., 2010) de um homem jovem que desenvolveu lesão renal e hepática grave após usar um preparado caseiro da planta por poucos dias. É evento isolado e com preparação diferente da de cápsula padronizada, mas suficiente para não tratar a planta como inofensiva por ser natural.

Este conteúdo é informativo, sobre nutrientes e compostos estudados por seus possíveis efeitos — não é indicação médica. Os suplementos indicados neste blog não são medicamentos, não tratam nem curam disfunção erétil, baixa libido ou qualquer outra condição, e não substituem prescrição médica nem tratamento em andamento. Se os sintomas persistirem ou piorarem, procure um profissional de saúde.